Das sagas intermináveis

Aviso antecipado pros molequinhos criados com vó, que soltavam pipa no ventilador e jogavam bola de gude no carpete: Esse é um post grande. Se não agüenta, não desce pro play, filhote.

Em outubro do ano passado, meu celular, um Sony Ericsson W380, sofreu uma queda com o flip aberto e ficou ligeiramente desconjuntado. Posterguei o conserto em virtude da viagem que fiz e o resultado foi que o infeliz, ao cabo de algumas semanas, começou a se desfazer a olhos vistos. Liguei para a Vivo, minha operadora, até então, e solicitei a retirada de um novo aparelho de celular. Disseram-me “Vá a uma loja, senhor”. A uma loja, senhor, eu fui.

Aliás, fui a mais de uma. Em todas elas não consegui encontrar UM aparelho da Nokia que fosse ligeiramente avançado. Não me refiro a um maldito N95, sabe, mas a um simples Nokia 5310. Era o que me bastava, juro. Porque, veja, eu uso celular para três atividades primordiais:
1) fazer e atender ligações, 95% delas relacionadas a trabalho, no período compreendido entre 9h e 18h.
2) Enviar sms pra jogar conversa fora (uso INTENSO desse recurso).
3) Ouvir música via fones de ouvido - sempre, pois não sou escroto a ponto de enfiar meu gosto musical refinado goela abaixo de ninguém - e, assim, ignorar as pessoas com maior facilidade.

Não se faz necessário ter um aparelho muito cabuloso, portanto. Eu me manteria com os Sony-Ericsson, de verdade, mas existe essa conjunção astronômica que coloca Vênus na casa de Urano enquanto Júpiter dá um rolé pelas quebradas plutônicas - agora bastante decaídas -, ignorando a sacanagem que se arma às suas costas, arquitetada por seu primo Marte e seus sidekicks Phobo e Deimos, e toda essa putaria astrológica, enfim, faz com que o signo do sinal da Vivo e dos celulares da Sony não se batam.

Mas, como dizia, não encontrei o aparelho da Nokia que eu queria. A Tim, por outro lado, tinha o aparelho à mão. Pra entrega IMEDIATA. E exigia tão pouca documentação, e meu pai, minha mãe, minha vó, minha sobrinha, meu cunhado e diversos amigos meus têm celular da Tim. E eu nunca vi essas pessoas terem problemas. E eu portei meu número para outra empresa.

E eu estava errado.

E chega de frase com e.

A Vivo até tentou me demover da idéia. Como uma ex-namorada recém-abandonada, que percebe que perde um bom homem para uma vagabunda rampeira, ela me ligou, mandou mensagem, fez propostas, implorou. Fui um idiota e ignorei. Levei meu projeto a cabo. E agora me fodo, porque quem é burro que peça a deus que o mate e ao diabo que o carregue.

Eu devia ter previsto. Vejam só isso: meu plano da Vivo era de 350 minutos + algumas bonificações (sms’s extras, dados pra navegação, coisa do gênero). A Tim tem o Tim Infinity 300, que é quase a mesma merda, e foi o que eu escolhi. Mas foi negado!

- Hein? Como assim, negado?

NEGADO, amigo. Quer dizer que pod’naum, já diria o porteiro do meu ex-colégio. De acordo com o vendedor, a Tim trabalha com um sistema de pontuação e blá blá blá, e pra poder fazer o plano de 300 minutos eu precisaria ter X pontos e etc. Ou, em outras palavras, a Tim exige um período de avaliação ANTES de te prestar um serviço. Ela não considera que o cliente é confiável de imediato.

Sendo assim, tive que me contentar com um plano de 80 minutos. “Vou extrapolar essa porra”, disse eu ao vendedor, “pois meu uso de celular no trabalho é intenso e eu gasto PELO MENOS 160 minutos por mês, em um mês fraco”. Eu trabalho prestando suporte em supermercados. Era dezembro. Para supermercados, dezembro não é um mês fraco. Para mim, portanto, dezembro é o inferno na terra. Não é mês da vinda do salvador, mas o mês em que a Cascavel das Sete Ventas caminha entre os mundanos.

E eu sabia que ia passar da cota, mas ok. O que fosse além, eu bancava. No mês seguinte mudava meu plano e estava tudo resolvido. Ah, que simples! Que bonitinho!

Mas estava ERRADO!

Leis BÁSICAS de Murphy, gafanhotos: NADA é tão fácil quanto parece; TUDO leva mais tempo do que se pensa; TODA solução cria novos problemas. Mantenham isso em mente pelo decorrer deste texto, será importante.

No final do mês de dezembro (no final MESMO, na manhã do dia 31) fui fazer uma ligação. Foi redirecionada para o SAC da Tim. O diálogo foi mais ou menos nessa linha:

- Central de Relacionamentos Tim, bom dia, em que posso ajudar?
- Não sei. Você pode me dizer por que diabos eu fiz uma ligação e ela foi direcionada pra você. Esse seria um bom começo.
- Senhor, confirme alguns dados, por segurança.
- Eu calço 42 e tenho olhos castanhos.
- Ok, senhor. Consta no nosso sistema um excesso de uso do telefone, senhor.
- Excesso de uso? Se eu conheço o suficiente da língua portuguesa, e acho que sou até razoável nessa área, cê tá me dizendo que vocês cortaram meu telefone porque eu uso demais?
- Precisamente, senhor.
- A Tim agora é minha mãe, é isso? Quantos anos eu tenho? Oito?
- Como, senhor?
- Vocês me deram um celular pra eu usar com parcimônia e agora estão tomando porque eu não fui responsável o suficiente? Tô me sentindo uma criança que abusou de um privilégio. Só que eu não sou criança e esse não é um privilégio. Eu pago por esta porra, cacete!
- Não, senhor, mas está previsto em contrato que um consumo [yadda yadda yadda, baboseiras técnicas de atendente de telemarketing], senhor.
- Ou, em outras palavras, se eu usar o celular mais do que vocês acham que devo, minha linha é cortada, pra eu aprender a me comportar. Que bonito! Muito didático da sua parte, mas preciso do meu celular funcionando, e não é capricho de quem quer marcar churras com a galera da facul, ok? Eu uso essa porcaria pra trabalhar. Quem eu tenho que matar pra ele voltar a operar?
- Vai ser preciso pagar um adiantamento da conta.
- Péra. Você quer que eu pague um pedaço da minha conta que vai vencer em 25 de janeiro?
- Isso, senhor. Quer que eu envie o código de barras por SMS?
- Sério, o que acontece aí? Vocês estão precisando de dinheiro desesperadamente pra comprar um peru pro reveillon hoje? Eu tenho um no meu freezer e garanto que não vou precisar, pode mandar alguém vir aqui buscar. Agora. Libera. A. Porra. Do. Meu. Telefone!
- O senhor precisa primeiro pagar o adiantamento, senhor.
- Então vocês estão me coagindo a ampliar meu plano, em outras palavras. Ou pago a mais, ou vocês cortam minha linha todo mês. Muito bonito!
- Não é isso, senhor, está prev…
- Estar previsto em contrato não torna menor o gesto de coerção. Qual o próximo passo? Me fazer uma proposta que eu não poderei recusar? Os Corleone ligaram e eles querem a famiglia de volta.
- …
- Manda esse código de barras logo.
- Ok, senhor.

Dia 6 de janeiro paguei a tal taxa. Até lá, meu celular foi apenas um mp3 player mais bonitinho. E com Zombie Infection. Passei pra moça os dados da transferência bancária e ela disse que estava liberando minha linha “em caráter de confiança”, vejam que gracinha. É como me chamar de safado, sem-vergonha e inadimplente, mas me dando um voto de confiança. Putos.

Infelizmente a confiança não durou. Dia 11 meu telefone foi cortado novamente. Liguei lá e a atendente informou - inclusive com bastante agressividade, que devolvi na mesma moeda (ela não sabia que tava entrando na minha quebrada quando resolveu falar grosso) - que a liberação havia sido feita confiando no meu pagamento e que, como o pagamento não tinha sido identificado, foi revogada.

E foi mais ou menos nessa hora que eles abriram a brecha pro processo que levarão no lombo, mas desse eu falo depois.

11 Respostas para “Das sagas intermináveis”


  1. 1 Guilherme

    Senhor, para sua segurança, a porra da ligação está sendo gravada.

  2. 2 Filipe Kiss

    Prezado filho da puta, favor me falar com clareza a porra do seu cpf.

  3. 3 Amanda Ourofino

    Guarda os protocolos…

    Eu já fiz isso contra a Claro. Hoje eles são pianinho comigo (devo ter uma estrela preta no meu cadastro) e eu ganhei mais de mil reais na brincadeira. Se quiser te ajudo na parte jurídica… rsrsrs

  4. 4 ralph

    A TIM-CO uma vez me colocou no SERASA por R$0,32, que foi um resíduo de uma conta que eu tinha cancelado.

    Levei 3 dias, peregrinando nas lojas da operadora, para conseguir imprimir esse boleto bancário. Eu até tentei subornar a gerente, oferecendo-lhe uma moeda de um real (fique com o troco, querida), mas ela não tinha como oficializar o pagamento.

    As operadoras de telefonia móvel são os principados e potestades da vida moderna.

  5. 5 Bio

    Processo ganho, Pedrão.

    Pelo menos, em SP, a jurisprudência tá toda em teu favor. Se quiser um pouco mais de grana, prove que perdeu dinheiro com a atitude deles e que quer ressarcimento.

    Abraz!

  6. 6 Hodes_

    Que foda, hein?
    Teve um lado bom: o texto ficou massa e me fez rir. =D

  7. 7 Aline

    Só te digo uma coisa: processa. Bando de FDP.

  8. 8 yoko

    Mas no fundo, no fundo, a Tim é uma boa operadora… not.

  9. 9 André

    Um post como os dos velhos tempos, hein amigo?

    Um abraço.

  10. 10 Michael

    As operadoras de telefonia móvel sempre encontram um jeito de se superar na arte de serem filhas da puta. Processa mesmo.

  11. 11 Hasmodai

    Nesse texto se lê tudo o que uma prestadora de serviço jamais poderia fazer. Que merda é essa? Parece até comportamento das falecidas estatais.
    Pagar para receber um serviço ruim e ter um atendimento desqualificado desses é ouvir eles implorando para serem processados.

Retruque!