De cinema, futuros alterados, respeito tecnológico e outras viagens…

Em 1990, eu era um guri de 9 anos, sobrinho de uma moça que trabalhava na cabine de projeção de um cinema. Na época - que nem vai tão longe assim, convenhamos, são “só” 20 anos -, existiam cinemas na rua: salas que não ficavam dentro de shoppings, mas “soltas” no meio da cidade, entre outros comércios. As pessoas saíam pra ir ao cinema, não pra ir ao shopping ver um filme. Não que fosse melhor ou pior, só era uma experiência diferente, que não se tem mais (ao menos em Brasília), porque igrejas evangélicas - a Universal, em particular -, como se arrancassem jerusalém das mãos dos sarracenos, empreenderam uma cruzada pra comprar todas essas salas e transformá-las em centros de gritaria.

(O que esses crentes não entendem é que não adianta berrar, chorar, arrancar os cabelos, dar chilique e fazer escândalo: se deus existe, é suficientemente sábio para nos ignorar e parece levar tal política bem a sério. Não posso culpá-lo. Eu também não ia querer conversa com a galera que trucidou meu filho.)

Dentre as várias vantagens de ter uma tia que trabalhava num cinema, a maior delas era que eu podia ver o filme quantas vezes quisesse. Se você acha que seu filho, sobrinho, irmão ou primo pode passar dias diante de um DVD, imagine se esse pivete tivesse à disposição uma sala de cinema inteira, com pipoca, doces e o diabo a quatro na bomboniere; com o som do projetor; com as poltronas confortáveis; com a tela que é maior do que o mundo; com o som que te faz mergulhar no filme; com tudo, tudo mesmo, até lanterninha, essa raça em extinção. Eu tinha. E, se deixassem, moraria lá dentro.

Aliás, a censura não era levada a sério na época. Não existia isso de vetarem a entrada de crianças por causa de uma besteira como “classificação indicativa”. Se ocorria, de algum modo sempre passei incólume pela regra, desde antes de ser sobrinho da moça da sala de projeção. Sendo o tal sobrinho, nem preciso mencionar.

Então, numa certa tarde de 1990, depois do colégio, minha mãe precisou comparecer a algum compromisso e me deixou com a tia Yone, que me recebeu na porta do cinema e me levou até a sala, já escura, recomendando que me comportasse. Quando relaxei no encosto da cadeira e olhei para a telona, a cena que se desenrolava prendeu minha atenção de imediato. O que começou com uma velha atravessando a rua tornou-se um assalto, seguido por um assalto ao assaltante, passando, daí, para a cena de um bando de sujeitos roubando uma loja de armas e metralhando impiedosamente um carro da polícia que se aproximou para impedir.

Era Robocop 2.

Devo ter assistido o filme de ponta a ponta umas três vezes. E diversas vezes mais nos dias seguintes. E, vendo Robocop 2 hoje, é curioso como tudo aquilo fazia sentido na época, mas fica fora de contexto atualmente. Todo o clima cyberpunk, com a cidade dividida entre os criminosos - querendo ver o oco -, a grande corporação - topando ver o oco, desde que possa lucrar com isso - e a população no meio, tendo que conviver com as putas, os motoqueiros, os bêbados, mendigos e baderneiros, procurando ajuda do governo, que se omite porque é corrupto, decadente e vendido a preço baixo para os executivos da OCP. Havia toda uma sinceridade nos filmes futuristas da década de oitenta que não existe mais hoje.

Entendam o que chamo de sinceridade como essa projeção pessimista do futuro, com a criminalidade atingindo níveis impensáveis e tornando um inferno a vida do cidadão comum, enquanto alguns poucos, abençoados com as graças da corporação, levam uma vida de luxo e tranqüilidade. Não se vê mais essa abordagem. O conceito futurista que temos, hoje, é das pessoas se tornando mais e mais inúteis em um mundo controlado por máquinas, e só.

“Matrix”, “Eu, Robô”, “Surrogates”… todos esses filmes retratam a mesma idéia, cada um a seu modo: as pessoas serão dominadas no futuro de maneira a não pensar por si mesmas, apenas reproduzir o que lhes é imposto, seguir sem questionar. Essa ameaça à liberdade individual é tão subjetiva que não há um levante criminoso, ou seja, não existe “o submundo”. Há - e sempre deve haver, ou não teríamos filme - algum(s) membro(s) da sociedade que se opõe(m) à ordem estabelecida. Mas é ridicularizado, via de regra, ainda que tenha (e sempre tem) razão. Assim, a divisão social torna-se clara, perde-se a área cinzenta. De um lado as pessoas normais, em seu comportamento de rebanho. De outro, excluído, uma pessoa ou grupo de pessoas. Some aquele grupo meio marginal, meio mainstream, aquele povo levando a vida no limite entre as contravenções e a ordem, sendo tolerado pela polícia apenas porque a situação é tão caótica que não vale a pena perder tempo com eles.

É curioso pensar que não é o estágio tecnológico que conduz as previsões desse tipo, mas o momento social e político. Por isso é difícil apontar outra possibilidade de futuro sem ser considerado pessimista ou utópico, da mesma maneira que, acredito, era complicado para os teóricos dos anos 80 desenvolver uma possibilidade que não envolvesse altos índices de criminalidade, ou para alguém da década de 50 pensar no futuro sem imaginar desastres atômicos e mutações causadas pela radiação decorrente.

Ainda assim, a tecnologia tem sua parcela de “culpa” nessas idéias. Se não estivéssemos tão sujeitos às máquinas como estamos agora, seria mais fácil conceber uma realidade na qual travássemos uma guerra furiosa com elas - como em Exterminador do Futuro - do que uma na qual elas nos dominam sem dificuldade, como em Matrix. O fato é que cientistas já identificaram positivamente que, à medida em que nos acostumamos às novas tecnologias, nossas capacidades vão diminuindo. Uma pessoa que tem todos os telefones que precisa anotados em seu aparelho celular tem menor capacidade de memorização do que alguém que não dispunha de tal recurso, há 20 ou 30 anos atrás. À medida em que as novas gerações têm maior facilidade para operar e entender novos equipamentos, terão maior dificuldade para operar e entender maquinário obsoleto.

O que quero dizer é que aquele teu primo molecote pode ser capaz de compreender e utilizar o telefone celular mais avançado da atualidade com uma mão nas costas, mas bota esse pequeno pústula pra operar o tracking de um vídeo-cassete e vamos ver se ele se sai tão bem.

Mexer em um sistema operacional com interface gráfica é mole. Quantas linhas esse inseto consegue avançar em um MS-DOS, se precisar operar um prompt de comando?

Até meu pai consegue jogar Wii. Pede pro seu irmão de 12 anos descobrir qual é o objetivo no ET ou Superman do Atari.

(note que essa previsão de um futuro limpinho e organizado funciona se considerarmos que os roteiros dos filmes são escritos e pensados em países limpinhos e organizados, ok? um roteiro futurista que se passasse no Brasil, por exemplo, escrito por um brasileiro, seria completamente cyberpunk oitentista, dada a situação que vivemos por aqui)

9 Respostas para “De cinema, futuros alterados, respeito tecnológico e outras viagens…”


  1. 1 Guilherme

    Cara, as piras do Ignácio de Loyola Brandão são bem dessa, s[o não tem máquinas. Você deveria ler “Não Verás País Nenhum”, isto é, se você ainda não o tiver lido.


    Nunca li nada dele, cara. Vou procurar! E volta pro twitter, viado.

  2. 2 Laís Dourado

    Sou o tipo de leitor-anônimo, mas, hoje eu tinha que dizer que o post ficou sensacional.
    Achei a análise super bacana!
    Fico só imaginando como essa visões ainda vão mudar! (será?)

    ps. legal que o texto tem várias idéias se desenrolando pra chegar na idéia “central”!

  3. 3 Enrique

    Texto foda, como sempre. Mas o que me chamou a atenção foi…
    “…(note que essa previsão de um futuro limpinho e organizado funciona se considerarmos que os roteiros dos filmes são escritos e pensados em países limpinhos e organizados, ok? um roteiro futurista que se passasse no Brasil, por exemplo, escrito por um brasileiro, seria completamente cyberpunk oitentista, dada a situação que vivemos por aqui)”

    Acabei de imaginar “Fuga de São Paulo”, com direito a Cyber-Maluf sendo metralhado pelo Kurt Russell no final. Ou mesmo “Fuga de Salvador”, com uma invasão de zumbis-do-Olodum e um trio elétr…um trio NUCLEAR cheio de armas e mísseis e o caralho, controlado pelo vocalista do Chiclete com Banana. Mas nãããããão, os diretores brasileiros preferem contar a história do Lula ou do Tony Ramos trocando de sexo.

  4. 4 yoko

    Umberto Eco em seu último romance (A misteriosa chama da rainha loana) fala sobre as diversas informações acumuladas e registradas durante a vida e que se esvaem em segundos. Um acidente vascular cerebral foi o estopim, mas a interpretação da realidade se aproxima de sua análise.
    As leituras são correlacionadas à geração que ali está operando. Mas imagine (o que é um pouco difícil já que as épocas se diferenciam cada vez mais rápido) daqui a uns dez, cinco anos, qual será a leitura para o cotidiano? (Não sei dizer ao certo, mas sinto uma certa falta de TKOF por esses dias).
    Enfim, ainda interpreto matrix (o um, é claro), como fruto direto da geração oitentista, aparentemente sem perspectiva, porém com uma facilidade de convergir cenários em múltiplas opções.

    (Back to the Future II, sem dúvida)

    Inté,
    =)

  5. 5 Fregola

    A única coisa que quero, é que volte a época das pornochanchadas (época boa no cinema nacional - e tb reflete a putaria da época), com essas mulheres de bunda-avantajada da mídia atual. Apesar que “Brasileirinhas” tá fazendo um bom trabalho nessa área…

  6. 6 Arno Anderson

    Cara, falar sobre o objetivo do Superman no Atari foi tocar o dedo na ferida…

  7. 7 Gustavo C.

    “à medida em que nos acostumamos às novas tecnologias, nossas capacidades vão diminuindo.” - sempre pensei nisso. Com licença de colocar um link de um texto que li há uns dias atrás: “Será que a escrita cursiva finalmente vai morrer?”
    http://www.gizmodo.com.br/conteudo/sera-que-escrita-cursiva-finalmente-vai-morrer

    Me faz pensar que: tecnologia é bom, facilidade é bom, hoje em dia a gente não precisa mais caçar pra se alimentar, mas um pensamento que passa pela minha cabeça é que tudo isso vai produzir gerações de pessoas preguiçosas e atrofiadas. Aliás, já podemos ver muitos exemplares desses por aí atualmente. =/

  8. 8 Letícia

    To numa merda de fase, e ontem fui no cinema sozinha pra descontrair… eu lembrei desse seu post, sei la o motivo!

  9. 9 paulo nazareno

    rapaz, meu irmão é professor. Num dia de prova, uma aluna estava pedindo sua ajuda para colocar a vírgula, na conta 0,8 X 5. Ela não sabia colocar a vírgula no celular. “Então faça à mão, ora!”. Ela não sabia fazer. Outro fez a conta no celular e ainda errou. O mais chocante é que meu irmão é professor de uma pós-graduação - numa faculdade particular.

    Enfim, lembrei desse epísódio enquanto lia o texto.
    Abraço.

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