Do excesso de carga

No meu mundo perfeito, o sofrimento seria uma coisa mensurável por uma razão bem simples: seria físico, visível, palpável. O seu sofrimento seria um fardo real, que você carregaria nas costas. Uma pessoa jamais poderia mascarar ou exagerar o próprio sentimento, todos poderiam ver se aquela reação era real ou não, pelo tamanho do saco de pedras preso às costas de quem se queixasse.

Com o tempo, essas pedras iriam diminuindo de tamanho até sumir e sua musculatura iria se acostumando ao peso, de modo que toda carga de sofrimento que você recebesse seria mais e mais tolerável. Simultaneamente, cada acontecimento desagradável faria surgir uma nova pedra, de tamanho e peso que iria variar de acordo com a intensidade do trauma.

Seu relacionamento acabou? Tome aqui uns dez quilos. Arranjou uma infecção urinária? Tome quarenta quilos. Alguém que você ama muito morreu inesperadamente em um acidente estúpido? Tome duzentos quilos. Quinhentos. Uma tonelada.

No meu mundo perfeito, eu poderia tirar esse fardo das suas costas e carregá-lo. E juro que faria todo o esforço do mundo pra te poupar disso, mesmo que só por algumas horas, mesmo que tivesse que passar um pedaço dele pra todo mundo que eu conheço e que sei que aceitaria ajudar. Porque é um fardo grande demais pra qualquer um.

Mas tudo o que eu posso fazer é te ouvir e falar com você, Gabi.
E torcer pra ser suficiente.

Tô aqui, não esquece.

5 Responses to “Do excesso de carga”


  1. 1 gabi froes

    ô, xuxu. que bonito isso. obrigada. eu não esqueço, e eu amo você um pouquinho mais por isso. obrigada. eu sinto também por fazer você passar por isso, sabe. mas um dia eu compenso isso. quando tudo passar. obrigada.

  2. 2 Jot

    Que texto bonito, Pedro.

  3. 3 Amanda Podanoscki

    Da série “Texugos também choram”.

  4. 4 J.

    realmente, um belo texto.

  5. 5 ana

    o pedro é um bom companheiro

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