Por que alguém diz que leu ou lê algo que não leu e não lê?
Exposta assim, a pergunta é muito ampla, então vamos simplificar. Eu compreendo por que alguém diria que leu um livro que nunca leu, por exemplo. Ainda mais quando é uma coisa dessas que todo mundo parece ter lido. Indo a um modelo de explicação meramente ilustrativo, mas que deve ser mais comum do que se imagina, entendo por que uma pessoa que gosta de ler, mas nunca leu James Joyce - porque James Joyce é um saco e tem nome de mulher - diria, numa roda de amigos que já leram James Joyce, que também leu. Ficam todas aquelas pessoas ali, arrotando conhecimento, falando que leram James Joyce como quem aponta uma gostosa e diz “Já comi”, logo o cara se sente meio assustado quando percebe que, em matéria de James Joyce, ele é o único cabaço. Então entra no wikiquote, procura trechos legais de qualquer merda escrita pela nossa querida Joice, e cita vários nas conversas com seus amigos. Isso lhe dá algum status no meio do grupo.
Também entendo o que faz alguém que nunca leu jornais dizer que lê jornais. A gente vê em todo lugar, o tempo todo, várias pessoas “importantes” dizendo como é “importante” ser “bem-informado”. Daí queremos ser “bem-informados”. Ser “bem-informado” é cool. Alguém de repente te pergunta as horas e você, como criatura “bem-informada” que é, faz logo uma preleção a respeito do atual estado político da Namíbia e do que está acontecendo com o grupo separatista Basco. Conclui dizendo que a hora não importa mais, pois já é muito tarde para os ativistas nepalenses contra a dominação chinesa, donde segue-se outro discurso inflamado a respeito da postura do Dalai Lama e dos planos da ONU diante desse quadro. A pessoa sai sem perceber que não foi respondida, boquiaberta com sua sapiência e achando que você é maluco. Veja só como é legal ser “bem-informado”.
Mas o que faz alguém dizer que lê um blog que não lê? Não pro dono do blog, pois isso poderia ser, sei lá, uma forma de gentileza. É como dizer “Gostei do seu chapéu”, quando tudo o que você quer é dizer “Teu chapéu é ridículo”: uma daquelas fronteiras sociais que poucos têm coragem de atravessar, porque conduz a caminhos muito, muito solitários (e, dependendo do tamanho do dono do chapéu, muito doloridos, também). Mas no caso do dono NUNCA ter perguntado se você lê, nunca ter PEDIDO pra você ler. O blog simplesmente está lá e você não lê. Pra quê colocar um link? Pra fazer “parceria” eu entenderia - seria desprezível, mas eu entenderia -, mas e quando não é o caso?
É possível argumentarem que eu não sei se a pessoa em questão lê o blog ou não, ao que eu contra-argumento que sei, sim. Porque analisemos o caso do utopia: mudou pra este endereço há quase um ano. No antigo reduto em que permaneceu por tanto tempo, e que agora é uma url abandonada, há apenas uma mensagem direcionando os que lá chegarem para cá. E ainda assim há quem coloque links pra lá. E você vem me dizer que uma pessoa dessas LEU o que está escrito? Não leu, não há o que discutir. Por uma razão qualquer incompreensível, algumas pessoas não abandonam URLs mortas. Ainda colocam links pra elas. Continuam visitando, mesmo que elas não existam mais.
E é ISSO que eu não entendo.
Porque, pense comigo, essa pessoa não lê o blog, e está tudo bem em não ler um blog como este. Este é um blog pequeno, um beco escondido e intencionalmente sujo e mal-iluminado na gigantesca palhaçada que é a blogosfera. E é assim porque eu quero assim, porque eu gosto assim, porque quero os palhaços fora daqui, quero que seja sombrio e desagradável. Quero que as pessoas tenham receio, nojo, desprezo por este gueto imundo e malcheiroso. Enquanto os outros lutam, mordem, latem e babam pra levar seus escritos à luz, pra ter seus textos disseminados, espalhados por intermináveis correntes de e-mail, quiçá rodando a web em arquivos .pps, eu quero os meus aqui, esquecidos. Aqui, e em nenhum outro lugar.
Então este não é um blog que você diz que não lê e outros blogueiros te olham com uma pontada de desprezo, muito pelo contrário: você diz “eu leio” e periga rirem da sua cara. É como, numa mesa em que se discute Dostoiévsky, você perguntar se alguém leu “O Segredo”. Eu não sou um Polzonoff, um Soares Silva, um Pedro Dória, e deus me livre e guarde disso. No dia em que perder meu bom-senso a esse ponto, peço encarecidamente pra que alguém tenha a decência de me dar um tiro no meio da cara, assim poderei levar para o túmulo o que me resta de dignidade.
Ou seja, não sendo esse um blog “importante”, um blog “grande”, um blog “informativo”, um blog de “credibilidade”, ou qualquer porra dessas, retorno então à questão que abre este texto: por que alguém diria que lê isso aqui, sem ler? Não é como se eu fizesse questão. Aliás, dependendo de quem for, eu até faço questão que não leia.
Infelizmente, minha compreensão das motivações alheias não atinge abismos tão profundos. São por demais bizarros e fora de lógica para que eu possa alcançá-los.

Vá que a pessoa se sinta bem mentindo desse jeito pros outros. Você vai tirar isso dela? Eu tiraria muito certo. =)
Sei lá, se me perguntassem se eu já li o livro do jogador de D&D, eu diria que li sim, mas na real só a parte do guerreiro. E já decorei. Quem precisa saber disso?
Pedrão,
não fosse por saber que esse comentário saiu em função do meu blog, eu não falaria. Porque conheço sua pouca paciência e, definitivamente, não quero arrumar confusão.
O link pro seu blog no blogroll realmente estava errado. Isso já foi corrigido. Me perco naquelas letrinhas todas. E tenho uma péssima memória.
Acontece que eu costumo acompanhar os blogs através dos feeds. Quando o Utopia mudou de lugar, simplesmente atualizei o feed no Google e segui a vida. Fui ver agora, nem no bookmarks aqui do Firefox eu mexi. Falta de lembrança, porque o feed mudou e eu continuei recebendo teus textos.
Não é uma mentira ou burrice. Não teria porque agir assim, especialmente porque não me acrescentaria nada fingir que leio. É muito melhor ler o Utopia. Apesar das eventuais crises de mau-humor, é sempre uma leitura prazeirosa.
Não faço “troca de links”, nem pretendo chamar a atenção daqueles que têm link no meu blog. Se os nomes estão lá é porque são recomendações que faço, de coisas que realmente leio e gosto.
De maneira que, será sempre bem-vindo para uma saudável troca de idéias.
Grande abraço,
Rapaz, pior que não foi você, foi uma situação. eu já ando tão PUTO esses dias que tô disparando a metralhadora pra tudo que me incomoda ligeiramente, coisas que eu ignoro em dias normais. Vide o lance do twitter, por exemplo. Tá difícil de tolerar qualquer coisa. Não se ofenda. O lance no teu blog foi o gatilho, como você bem percebeu - eu não vou desrespeitar tua inteligência dizendo que não - mas não é nada pessoal. O foda é que eu queria acreditar que essa foi a última vez que eu vi algo assim acontecer, mas duvido pra caralho. Daqui a uns dias ocorre de novo. E vai ser quando eu estiver em outra fase dessas, a fim de torcer o pescoço de qualquer um, por qualquer coisa, feito um cão raivoso preso na coleira avançando até na própria sombra.
Um abraço.
Esse texto me lembrou dos branquelos que dirigem carros de cinquenta mil e escutam rap venenoso. Acham a cultura da periferia descolada e sabem as gírias.
Mas continuarão sendo branquelos.
Isso me lembrou um livro que saiu agora em janeiro sobre os livros que ninguém lê mas diz que leu, coisas como Proust e Dante.
É claro que não serve para mim já que eu leio Proust no original :P
Hahahaha
Mas que esnobe, você, Priscilinha.
Não me senti ofendido, não. Só quis explicar. Achei bacana por demais saber que você passou por lá — não podia deixar o mal-entendido (ou o que eu achei que fosse um mal-entendido) sem algum esclarecimento.
=)
Abraço,
Puxa, depois dessa vou ali atualizar o link do Marconi Leal. Mmmm… Nãão. Vou continuar indo do antigo pro novo, como a boa safada preguiçosa que sou.
Eu estou lendo Proust, devagar como uma lesma com cãimbras, traduzido mal e porcamente, mas estou, Priscila!
Opa!
1 - leio pelo google reader;
2 - desculpe…
Pedro: Desculpe pelo quê, mano? =p
Amém, amém, amém…
Talvez a pessoa tenha visto seu blog uma vez(ou duas), por indicação de outro site, acabou linkando, eu, por exemplo, conheci o seu blog através do Jesus me chicoteia. Enfim, a pessoa pode ter apenas colocado o link pra fazer uma média {porque algum blogueiro famoso fez o mesmo (hahahaha) e eles, querendo visitas no próprio blog, tentavam parecer “bem relacionados”…}, pode ter copiado sem ao menos conferir a lista de links de algum “blogão”… Ah, sei lá… Esse post é velho mesmo… hehehe