Se você já leu Armas, Germes e Aço, ou se tem ao menos um vago conhecimento das teorias sobre o desenvolvimento da espécie humana, deve saber que nós, os bípedes implumes, antes de resolver que queríamos fixar residência, montar choupanas, abrir crediários e nos preocupar com coisas como “que horas passa o caminhão de lixo?” ou a altura do som do vizinho, éramos caçadores-coletores. Ainda não tínhamos descoberto que as vacas são domesticáveis e as cenouras também, portanto caminhávamos a esmo procurando plantas e animais que fossem suficientemente estúpidos – tanto as plantas quanto os animais – a ponto de anunciar que estavam disponíveis para o almoço (o exemplo de uma planta inteligente, que nunca se anunciou como um petisco fácil – e sou definitivamente incapaz de conceber em que nível de desespero se encontrava o primeiro antepassado do homem moderno que resolveu comê-la – é o abacaxi).
Quando conseguimos colocar as vacas em cercadinhos e descobrimos que era possível desenvolver plantas a partir da seleção de mudas das árvores e sementes dos frutos mais bem desenvolvidos, paramos com as andanças, na medida do possível, e partimos para uma nova etapa da existência humana, a pedra fundamental da civilização: o acúmulo de bens. Ter abacates suficientes para distribuir para os vizinhos, conforme acontece com meu pai e seu abacateiro mutante, por exemplo, deu a esses mesmos vizinhos (não os do meu pai, claro, os vizinhos do primeiro antepassado humano a distribuir abacates, carne, ou qualquer outro tipo de comida que ele tivesse de sobra, sem precisar caminhar trocentas verstas por dia para acumulá-la) certa sensação de segurança, e eles começaram a pensar que, oras, se o vizinho tinha vacas, abacates, faisões ou cacauetes em quantidade tal que fosse possível sobreviver apenas com aquilo, sem a necessidade de caçar, por que não nos ocupamos de outras funções, tais como o desenvolvimento da engenharia, a abertura do primeiro puteiro ou a invenção das maiores cagadas que a humanidade já cometeu: a burocracia e a religião?
Foi em algum momento após isso que talvez alguns dentre esses vizinhos que não produziam nada de crucial, ou dos senhores dos meios de produção de alimentos (os donos dos rebanhos, ou os donos das plantações, que descobriram que era possível colocar outras pessoas para gerenciar essas coisas para eles, em troca de uma parcela menor dos resultados produzidos), munidos de muito tempo livre e pensando um monte de asneiras, resolveram que estava na hora de determinar como, quando, onde e por que diabos as pessoas poderiam fornicar. E aí começamos a nos preocupar com os orifícios alheios, já que encher nossos estômagos já não era mais tão difícil ao ponto desta idéia ocupar todo o nosso tempo. De lá para cá, temos aí os que permanecem difundindo o conceito de que o sexo deve ser praticado desta forma, e não daquela, entre pessoas deste tipo, nunca de outro, com um número X de participantes – mais ou menos do que isso, jamais.
É importante frisar que muitas dessas pessoas fazem isso de forma impensada, sem jamais refletir sobre em que momento da história da humanidade e por que tipo de interesse particular a propagação desse tipo de idéia passou a ser importante. Isso não significa, sob nenhum aspecto, que devemos ignorar o fato de que tentar definir protocolos sobre como, quando, em que circunstâncias, com quem e por que deve ser feita a fricção genital alheia é uma atitude invasiva e inaceitável. É apenas um lembrete que, com essas pessoas, precisamos falar devagar. Explicar pausadamente. Evitar o uso de polissílabos. Porque essas pessoas são claramente incapazes de pensar por si mesmas. Têm a cabeça muito, muito limitadinha. E as razões pelas quais acreditam nesse tipo de baboseira hipócrita, que lhes foi enfiada garganta abaixo durante toda a vida – e que elas NUNCA obedeceram inteiramente, é válido mencionar -, nem elas sabem quais são. Elas conhecem todas as falácias utilizadas para mascarar a verdadeira intenção de quem pretendeu padronizar os hábitos particulares alheios, claro: “deus não gosta”, “isso é errado”, “pessoas decentes não fazem isso”, “isto é uma falta de decoro”, “minha filha, o que é isso?”, etc.
Pergunte a elas “Por quê?” 3 vezes, uma das melhores técnicas argumentativas já utilizadas (agradeçamos às crianças por essa contribuição genial), e veja o cérebro desses pobres infelizes dar um nó. Observe a resistência que empreendem para impedir que suas idéias sejam retiradas dos caixotes onde eles fazem questão de mantê-las. Você está tentando reprogramar a base de critérios, princípios e conceitos de um ser humano. E não vai conseguir, na esmagadora maioria das vezes. Mas, quando conseguir… bom, podemos ter aí outro problema.
Imagine o cérebro de alguém como um elástico. Estique-o até o limite de sua capacidade. Esta é a mente da pessoa que você está tentando convencer a parar de criticar uma moça por ter copulado com um certo número de outras pessoas, ou a desistir de dizer em voz alta e/ou em público que “discorda” da homossexualidade. A tensão sobre o elástico são suas palavras subitamente forçando a luz em um ambiente onde, até então, havia apenas, como no princípio de tudo, o verbo, simples e puro, com o espírito de deus (na verdade com a voz da religião, esta maravilhosa ferramenta de estagnação do pensamento humano) pairando sobre as águas. Suponhamos que seus argumentos, então, evoquem um repentino “Fiat lux” sobre o abismo que é o ideário da criatura em questão. Simbolize este acontecimento cortando o elástico com uma tesoura. Viu como ele voa longe? Então.
Ao ser arrancada de seu estado de dormência, a mentalidade de uma criatura dessas pode subitamente entrar em um surto de movimento que irá conduzi-la para o extremo oposto de onde antes se encontrava. E, como deveria ser do conhecimento geral, extremos não são bons. Não é agradável que alguém caminhe a passos largos e de peito aberto para o neonazismo, tampouco para o panfletarismo, seja em relação aos homossexuais, ao feminismo, à liberdade sexual… Não, não estou preparando três ou quatro longos parágrafos para arremeter à furada argumentação de que “Eu respeito o direito das classes menos favorecidas, desde que elas calem a boca“. A manifestação das classes menos favorecidas, o incômodo que isso causa, é uma necessidade para o equilíbrio gradativo dos pesos e contrapesos da sociedade. É lógico que os bispos da CCBB e as velhinhas da TFP não irão, nunca, reconsiderar suas idéias a respeito de dois homens que se amam e têm sua união civil reconhecida pelo estado apenas porque quinze mil, trinta mil, duzentos mil gays, que seja, fizeram uma passeata na avenida paulista. Tudo o que a atitude dos gays causa nessas pessoas é revolta, e é exatamente o que elas merecem sentir. Empurrar goela abaixo dos reacionários, através de uma passeata com mais de cem mil participantes, que existem aqueles que não agem conforme sua cartilha, não deixa de ser uma forma pacífica de revolução. E, palavras de Grantaire, meu amigo: “de tempos em tempos, o excepcional se faz necessário (…) entre os homens, é preciso haver gênios, e entre os acontecimentos, revoluções“. O problema é o rumo que essas revoluções tomam, como elas se manifestam e como, antes de finalmente encontrarem seu lugar dentro da ideologia social vigente, tornando-se algo que “todo mundo sabe que”, em vez de ser algo que “tem gente que acha que”, serão expostas e impulsionadas por seus integrantes.
Chegamos, então, à minha preocupação atual com o feminismo, conforme se apresenta hoje em dia.
(continua em outro post, senão fica muito grande e prefiro não abusar {tanto} da paciência de vocês)
Deveras ansiosa pra ler o restante desse texto.