Eu e o véio Tolsta.

Tentei ler Guerra e Paz. Admito, envergonhado, que sem sucesso. A culpa foi minha, claro, mas apenas em parte.

Explico: pedi ao meu pai que trouxesse, ao comprar o livro, uma tradução respeitável, em dois volumes, fiel ao original. Nada dessas edições dos grandes clássicos lançadas atualmente, totalmente retalhadas, que estão mais para resenhas muito longas do que para versões muito curtas. E pedi assim porque sabia que este seria um livro extenso e era isso o que eu estava querendo. Mas me ferrei.

O velho trouxe uma versão de 1958. Tem até uma dedicatória, e tenho quase certeza que todas aquelas pessoas (a que ganhou o livro e o casal que presenteou) já estão mortas.

A tipografia dos volumes é tão pitoresca que dá pra sentir o relevo das (minúsculas) letras nas páginas. Além do mais, o português usado é relativamente arcaico, o que me força a reler alguns trechos uma vez e outra até entendê-los.

Mas minha culpa termina aí. A responsabilidade, a partir de então, é do véio Tolsta (só pros íntimos).

Como disse antes, eu sabia que o livro era extenso, mas presumi que fosse um daqueles volumes extensos-porém-fluidos, i.e. cuja história, apesar de longa, transcorre de forma dinâmica, mantendo a atenção do leitor. Mas não: é um livro extenso-porque-minucioso, ou seja, de cada três parágrafos, um é realmente útil para a história. O resto é apenas o autor discorrendo sobre a decoração do local, o clima, a roupa e a fisionomia de cada uma das pessoas - embora boa parte delas mal participe da ação.

Aliás, “ação” é um pouco forte da minha parte, já que o começo do livro não tem ação alguma. Nada que pareça ser REALMENTE relevante (e admito que essa é uma conclusão um tanto sem embasamento da minha parte, já que não passei da 50ª página e todas aquelas conversas enfadonhas podem acabar se apresentando como sendo pontos-chave para a história algumas páginas adiante). Apenas burgueses russos em reuniões da alta sociedade trocando gentilezas apenas por educação e falando de amenidades.

O problema é que, depois de ler o Germinal, ando tomado por um leve torpor socialista, o que me deixa sem paciência pra esse tipo de narrativa.

A soma de todos esses fatores me fez encostar o Guerra e Paz por algum tempo. Acho que ainda não estou pronto pra ele, que também não está pronto pra mim. Vou partir para outro (Memórias de Adriano, talvez) e depois tento de novo.

7 Responses to “Eu e o véio Tolsta.”


  1. 1 Lincoln

    Da Margueritte Yourcenar eu li a obra em negro e gostei muito… bem da verdade As Memórias de Adriano seriam uma escolha seguinte pra mim… vê lá o que vc acha…

  2. 2 Pedro

    Assim que terminar de ler, te passo minhas impressões a respeito.

  3. 3 baco

    leia sheldon mesmo! muito mais simples…
    ja ouviu falar da banda ‘vulgue tostoi’? deve ter algo a ver, né… sei lá. nao quero ser culto hoje. tou entrando em férias.
    vc é de sampa, figura?

  4. 4 Pedro

    Pô, Baco, calma lá! Eu admito minha incapacidade de ler Tolstoi, mas daí a me render a Sheldon vai um longo caminho. Isso eu só fiz uma vez e preciso esquecer meu orgulho pra admitir.
    E não, cara, não moro em sampa. Sou de Brasília. =)

  5. 5 Henrique

    Pedrão, eu não me arrisquei a ler não. Meu pai tem uma edição antiga, mas em um volume. Nunca abri. Agora, esses dias um colega levou na faculdade uma edição nova e, acho, traduzida direta do russo. Essas antigas são traduções do francês, e dizem que é pior. Leitura chata por leitura chata, eu tenho devorado Pedro Nava, que faz um bem danado, mas descreve até. Abc, e avisa qdo vier novamente à São Paulo!

  6. 6 mari

    viva o realismo. germinal é foda… a realidade presica ser um pouco mais sangue nos zóio…

  7. 7 S

    Pedro, acredite em mim. Do véio Lev eu entendo mais do que se imagina.
    O livro não é como deveria. É espetacular, mas é um lixo. É um livro renegado pelo próprio autor, como quase tudo o mais que ele escreveu - ou, tudo. Leia os livros de contos, que também são fenomenais embora ruins. Acaba de sair um ótimo. Ou livros mais do final de sua vida. O melhor do Tolstói é sua incoerência, o inconformista sempre, de sensibilidade profunda e perfeitas construções de frases. Ao reler-se em russo ele já tinha vontade de ter sido pedreiro, que dirá em português de dantes. Mas é um gênio.
    Leia - e depois bote fogo.

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