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	<title>::Utopia Dilucular::</title>
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	<description>Senta que lá vem a história.</description>
	<pubDate>Tue, 31 Aug 2010 15:56:51 +0000</pubDate>
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		<title>Da inspiração e outros demônios</title>
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		<pubDate>Sat, 28 Aug 2010 17:18:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[divagacoes]]></category>

		<category><![CDATA[talento]]></category>

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		<description><![CDATA[O cursor pisca. Surge. Some. Surge. Some. Surge. Some. Surge. Some.
Esse cursor é, pra quem escreve nessa época de impulsos elétricos, o que era o capataz para quem apertava parafusos na revolução industrial. O leão-de-chácara que vigiava os escravos. O gerente que curte um assédio moral, a fim de construir o caráter. O cursor é [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O cursor pisca. Surge. Some. Surge. Some. Surge. Some. Surge. Some.</p>
<p>Esse cursor é, pra quem escreve nessa época de impulsos elétricos, o que era o capataz para quem apertava parafusos na revolução industrial. O leão-de-chácara que vigiava os escravos. O gerente que curte um assédio moral, a fim de construir o caráter. O cursor é um crápula.</p>
<p>As idéias enxergam a verdadeira face do cursor, por isso desaparecem quando ele surge, não há outra explicação. Quando não existe a menor possibilidade dele dar as caras, elas organizam uma verdadeira orgia no cérebro. Vão e voltam, complexas ou simples, com início, meio e fim, encadeadas de forma perfeita. É transcrever e ali está a obra prima. A capela sistina. O Davi. O homem vitruviano.</p>
<p>O problema é o papel. Vou além: o problema é o cursor. Porque para levá-las deste meio disforme e mutável - onde a perfeição não só existe como, mais do que isso, é uma constante -, o mundo das idéias, para este outro lugar, firme e inflexível, repleto de julgamentos outros que não o primordial, e onde, no caso de quem escreve, existe o maldito cursor, é preciso desviar a atenção da idéia - objeto a ser transcrito - e voltá-la para o &#8220;papel&#8221; - superfície de transcrição. Surge daí a contenda: estes dois objetos não permitem descuido. Perca a idéia de vista por um instante e ela desaparece, como se nunca por ali tivesse passado. Faça uma transcrição distraída e o resultado final estará muito aquém do conceito original. Ambos exigem de você nada menos do que 100% de foco.</p>
<p>E não percamos tempo atestando o óbvio, concluindo que dedicar 100% de foco a duas coisas, ao mesmo tempo, é tarefa impossível. Vamos à questão prática: o que fazer? A única solução é prestar atenção total em ambos, o máximo de tempo possível, de forma alternada. Um afago em sua idéia, enquanto vira as costas pro papel. Depois, de volta ao papel, é hora de escrever enlouquecidamente, até sua idéia aparentar enfado e dar a entender que pretende abandonar o recinto. Nessa hora você larga seu trabalho e retorna à contemplação. Idéias precisam disso, é do que elas se alimentam, é como ficam fortes, fornidas e fagueiras. Sem isso, são fugazes (ficando apenas na letra F).</p>
<p>É onde reside a maldição do cursor. Enquanto você, cuidadosamente, procura dar à sua idéia a atenção merecida, o cursor pisca. Surge. Some. Surge. Some. Surge. Some. &#8220;Ignore-o&#8221;, diz um principiante, mal sabendo que essa intermitência não é um aviso suave e gentil de &#8220;Estou aguardando&#8221;. Antes, é o estalar de um chicote, o engatilhar de uma espingarda. É o prazo, urgindo. E prazo, na língua de Shakespeare, não leva o nome de deadline à toa. O prazo não vem sozinho, o prazo traz a angústia, a ansiedade. O prazo traz palpitações, vem acompanhado de pressões que, se não forem externas, são internas. E quem saberá dizer qual das duas é pior? O prazo é a necessidade que não admite ser postergada. O prazo te faz perder a idéia de vista, focar no trabalho, submergir na produção que, subitamente, caminha a passos rápidos, toma vida própria e segue de forma independente. Você, dedilhando o teclado, é mero espectador de uma pintura que se faz sozinha.</p>
<p>Perdido na empolgação do texto que se desenrola, você abandona a idéia. E idéias são como crianças: cinco segundos de descuido e&#8230; para onde ela foi? Foi um lapso de desatenção, coisa rápida, quase imperceptível. Foi o que bastou para que o resultado final, em vez daquele conceito brilhante, inicialmente pretendido, descambasse para uma coisa qualquer, um amontoado de idéias sem muito nexo. Um texto estranho, sem sentido, sem propósito. Feio, pra dizer sem rodeios.</p>
<p>Um texto como este.</p>
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		<title>Livreiragens</title>
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		<pubDate>Thu, 29 Jul 2010 00:43:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[informatica]]></category>

		<category><![CDATA[literatura]]></category>

		<category><![CDATA[nerdice]]></category>

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		<description><![CDATA[Você sabe o que é um troll o skoob?
O skoob é mais um desses sites de relacionamento, tipo o orkut ou o facebook, onde você pode forçar amizade com desconhecidos como se fossem seus amigos, deixar mensagens inconvenientes, receber mensagens impertinentes, entrar em comunidades inúteis e escrever inutilidades em tópicos sem utilidade alguma, ao mesmo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Você sabe o que é <s>um troll</s> <a href="http://www.skoob.com.br" target="_blank">o skoob</a>?</p>
<p>O skoob é mais um desses sites de relacionamento, tipo o orkut ou o facebook, onde você pode forçar amizade com desconhecidos como se fossem seus amigos, deixar mensagens inconvenientes, receber mensagens impertinentes, entrar em comunidades inúteis e escrever inutilidades em tópicos sem utilidade alguma, ao mesmo tempo em que coloca uma foto que te faz parecer algo que você não é - COFCOFBONITCOFCOF -, de modo a atrair as gatas (só gatas) e assim conseguir finalmente comer alguém.</p>
<p>&#8220;Ou seja&#8221;, você me interrompe, sendo falastrão e inoportuno, &#8220;é mais um sucedâneo para as duas redes já citadas&#8221;. Se fosse, amigo, eu não perderia meu tempo vindo aqui falar desta porra. Senta <s>que lá vem a história</s> e escuta e espera eu terminar.</p>
<p>Então, como dizia, o Skoob pode parecer mais um sucedâneo de orkuts e facebooks da vida, mas tem um diferencial: assim como o last.fm segue o mesmo princípio - mas é voltado pra música -, o livemocha mostra funções semelhantes - com foco em aprendizado de idiomas - e algum outro que eu não conheço tem todas essas funções - mas liga as pessoas falando de cinema ou qualquer outro hobbie de aplicações práticas inexistentes -, o skoob serve para tudo o que já foi mencionado, mas sua idéia principal é literatura.</p>
<p><a href="http://www.4shared.com/audio/wh2Apw5E/funkao_do_monstrengo.html" target="_blank">É mais ou menos assim, ó</a>: você entra em <a href="http://www.skoob.com.br" target=_blank>www.skoob.com.br</a>, se cadastra (nem precisa de convite, chupa, orkut de 2004) e passa a buscar, na enorme lista de livros já cadastrados, os títulos que já leu, vai ler ou está lendo. Aqueles que estiverem ausentes você mesmo pode cadastrar tendo à mão algumas informações simples, como ISBN, número de páginas, título, autor e editora.</p>
<p>Na criação da sua estante, você também pode classificar os livros com estrelinhas que vão de 1 (ruim) a 5 (ótimo), escrever resenhas, acompanhar o histórico de leitura dos livros marcados como LENDO - com direito a comentários opcionais. Tem a possibilidade de marcar os livros que tem, os que quer ter, os que emprestou e os que está querendo trocar. Pode criar uma lista como meta de leitura para o ano corrente e marcar seus livros favoritos.</p>
<p>Muita gente cadastra por lá outras coisas que, na minha pouco humilde e muito válida opinião, escapam completamente à esfera da literatura, como quadrinhos, mangás e até periódicos, então eventualmente você vai esbarrar com usuários que afirmam ter lido 200 títulos. Sou meio purista com essas coisas e não menciono nada além de livros, e mesmo assim só falo dos que li nos últimos 5 ou 6 anos. Qual o objetivo de cadastrar lá as coisa que li do Monteiro Lobato, Pedro Bandeira, Coleção Vagalume e assemelhados, sendo que não faço muita questão de travar contato com pessoas dispostas a discutir esses livros/autores? Prefiro escrever resenhas falando dos livros que li e não gostei (como Lobo da Estepe e O Apanhador no Campo de Centeio, por exemplo), ou buscar, entre meus amigos adicionados, quais leram meus livros preferidos, de modo a prestar a esses, ainda que apenas mentalmente, o respeito que merecem.</p>
<p>No fim das contas, o skoob pode servir tanto como ferramenta de controle - sempre quis poder manter à mão as datas em que comecei/terminei de ler meus livros, e costumava escrever essa informação na orelha da contracapa - quanto como rede social, onde você pode buscar e puxar conversa com pessoas com gosto literário semelhante ao seu (ou brigar com aqueles que criticam as coisas que você gosta, esporte muito mais apreciado por essa corja ignara que circula pelas infernetes). Também pode ser usado para controlar os empréstimos de livros que você fizer - prática que abandonei, por não confiar na devolução.</p>
<p>Nem tudo são flores, claro. Existem alguns bugs desagradáveis no sistema (pode levar um tempo pra que um livro concluído conste como lido na sua meta de leitura, por exemplo), e é comum receber mensagens de &#8220;autores&#8221; divulgando &#8220;livros&#8221; que não passam de versões tão mal-escritas quanto e ainda mais pobres (se é que é possível) das &#8220;histórias&#8221; do Dan Brown, J. K. Rowling e Stephenie Meyer. Mas esses arautos da subliteratura podem ser denunciados como spammers, enquanto a equipe de desenvolvimento responde com presteza quando algum problema é notificado.</p>
<p>No fim das contas, o skoob pode ser bem divertido.</p>
<p>(Se resolver experimentar, <a href="http://www.skoob.com.br/usuario/170464" target=_blank>entre em contato</a>.)</p>
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		<title>Jana, um ano depois</title>
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		<pubDate>Sun, 25 Jul 2010 08:30:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[amor]]></category>

		<category><![CDATA[divagacoes]]></category>

		<category><![CDATA[saudade]]></category>

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		<description><![CDATA[Hoje completa-se um ano que a Jana morreu e vinha pensando, há alguns dias, numa história que ilustrasse quem era minha irmã, alguma lembrança que de certa maneira a definisse, porque as definições que dei dela aqui foram todas referentes às circunstâncias da doença e àquela cama de hospital, quando ela era muito maior do [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Hoje completa-se um ano que a Jana morreu e vinha pensando, há alguns dias, numa história que ilustrasse quem era minha irmã, alguma lembrança que de certa maneira a definisse, porque as definições que dei dela aqui foram todas referentes às circunstâncias da doença e àquela cama de hospital, quando ela era muito maior do que aquilo. Infelizmente não consegui.</p>
<p>É difícil pensar em uma só história que ilustre, com justiça, quem é uma pessoa. Sua índole, seus valores, seu comportamento. Há pouco, entretanto, tive um sonho que lhe fez muita justiça, e estou aqui, às 3h30m da madrugada, desperto, escrevendo, porque duvido que conseguiria, conscientemente, pensar em algo tão parecido com a minha irmãzinha quanto isso.</p>
<p>Jana deixou duas filhas, Isabela e Isadora. Uma com 13 anos a serem completados em setembro, outra com 6, comemorados em março. A mais velha é, como compete ser aos filhos mais velhos – e como, entre os filhos da minha mãe, a Janaína também era – mais safa (e se você estiver lendo isso, seu inseto, safa significa livre, solto – não é nenhuma abreviação de “safada” ou coisa parecida, teu tio não diria algo assim de você, oras) e se vira com maior desenvoltura diante das coisas. A Isadora, por questões tanto de idade quanto de natureza, precisa de um pouco mais de atenção e ajuda, de modo a não permitir que  toda aquela inteligência e argúcia se transformem, de alguma maneira, em empecilhos para seu desenvolvimento ou acabem por fazê-la andar rápido demais, deixando etapas importantes passarem despercebidas.</p>
<p>Eu vinha, enfim, caminhando com a Isadora por algum lugar meio estranho. Parecia uma floresta ou pântano, mas com sinais claros de intervenção humana. Era meio que uma pista de obstáculos para ela, com lugares para subir, coisas para pegar, etc e tal. Andávamos por ali, ela fazia o que tinha de fazer, conversávamos, ríamos. E chegamos diante dessa portinhola que, aberta, revelava um fluxo de água deslizando por um tobogã, cujo fim sumia de vista devido às curvas que fazia. Isadora claramente tinha que descer por ali, e eu a incentivava, por ter certeza de que o fim do passeio seria tranqüilo. Ela foi, com certa relutância inicial, pois é um bichinho do mato, mas não pelo lugar certo. Em vez de deitar-se na corrente e escorregar para onde quer que fosse – local no qual minha mãe a esperava, segundo meu sonho –, foi descendo devagarinho por um corrimão localizado ao lado. Eu ri e disse que ela devia ir pela água, seria mais rápido e mais divertido. Nisso ela tirou a roupinha que usava, ficando de maiô, e acatou minha sugestão, logo sumindo da minha vista. A roupa que tirara, entretanto, jogou para fora do escorregador, e ali estava eu com a missão de recolher.</p>
<p>Sob a estrutura que formava o toboágua havia esse riacho lamacento, sujo e malcheiroso onde eu evitava pisar, portanto me esticava como podia, em volta da pequena torre que protegia o brinquedo. Consegui pescar o top, mas tinha dificuldades para alcançar a saia. E foi nessa hora que a Janaína apareceu, caminhando com desenvoltura pelo rio que eu não tinha coragem de pisar, e, sem dizer palavra, recolheu a saia da filha dela, me estendendo em seguida com um sorriso aberto, sincero. Sorri de volta, meio sem-jeito, diante tanto da minha irmã morta (pois eu sabia que ela estava morta) quanto do meu despreparo como tio. Jana sumiu e o sonho mudou pra qualquer outra coisa não relacionada e irrelevante.</p>
<p><center>***</center></p>
<p>Nos meus sonhos é sempre assim. Ela aparece silenciosa e sempre tenho consciência de sua morte. Não sei o que isso significa e sinceramente acredito que não tenha significado nenhum – creio em interpretação de sonhos tanto quanto em deus, na idoneidade da igreja ou em florais de Bach –, mas é quanto basta para me deixar dessa maneira, insone e taciturno em plena madrugada. Ao menos consigo vê-la um pouco, sorrindo e em movimento. Tira da minha cabeça, por alguns instantes, aqueles dias de hospital, o caixão e todo esse universo lúgubre que recai sobre os mortos.</p>
<p>Ano passado ficava me perguntando como e onde eu estaria hoje, nesse um ano aprendendo a lidar com as inevitabilidades da vida. E, de todas as coisas que sou, de tudo o que me forma, tentava entender que peso teria uma irmã morta na equação que determina meu comportamento. Em que sentido isso me faria pender? Me aconselharam diversas vezes a não deixar que me endurecesse. Hoje vejo que é impossível. Mas, partindo de um princípio um tanto cheguevaresco, minha dificuldade é para impedir que esse endurecimento, de alguma maneira, me torne pior.</p>
<p><font size=1>Não importa, para mim, a interpretação que você faz do sonho narrado aqui, os sinais que pensa enxergar, a lógica que acredita ver no fundo disso tudo. Farei questão de desconsiderar quaisquer tentativas nesse sentido. Não perca seu tempo, não quero perder o meu.</font></p>
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		<title>Da surdez seletiva</title>
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		<pubDate>Wed, 14 Jul 2010 03:35:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro</dc:creator>
		
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		<category><![CDATA[mulheres]]></category>

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		<description><![CDATA[Os homens têm essa habilidade - que, até onde posso perceber, escapa às mulheres - de abstrair completamente o universo a seu redor, de focar em apenas uma atividade e, uma vez imerso naquilo, ignorar a maior parte dos estímulos externos. Mulheres fazem piadinhas dizendo que somos &#8220;monotarefa&#8221;, que somos incapazes de executar mais de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Os homens têm essa habilidade - que, até onde posso perceber, escapa às mulheres - de abstrair completamente o universo a seu redor, de focar em apenas uma atividade e, uma vez imerso naquilo, ignorar a maior parte dos estímulos externos. Mulheres fazem piadinhas dizendo que somos &#8220;monotarefa&#8221;, que somos incapazes de executar mais de uma função ao mesmo tempo, como se isso significasse algum tipo de limitação mental. Eu não apenas defendo que tal argumento é falso - homens conseguem fazer mais de uma coisa ao mesmo tempo, sim - como também acredito que elas só escarnecem dessa nossa habilidade porque não a têm.</p>
<p>E há uma razão simples para isso, para as mulheres não serem capazes de entrar na própria cabeça, trancar a porta à chave e ouvir apenas os próprios pensamentos (ou, no caso de muitos homens e mulheres, somente o silêncio completo que domina seu cérebro): a razão é que nós desenvolvemos esse dom graças a elas. Daí o nirvana ser um recurso unicamente masculino.</p>
<p>Uma mulher é incapaz de calar a boca. É uma questão cromossômica, acho. Em público, na companhia de diversas pessoas, ela talvez até consiga manter um silêncio regulamentar. Pode ser conhecida como uma pessoa calada entre amigos, até mesmo entre familiares. Mas quando estiver sozinha com o marido/namorado, já era. Como um sul-africano que sopra sua corneta até a beira da asfixia (e uso aqui o termo EM PORTUGUÊS para as cornetas, repare!), a miserável desanda a falar e falar, dissertando longamente sobre as coisas mais dispensáveis possíveis. Sua mulher vai te contar sobre um drama familiar ocorrendo com um primo de quinto grau com o qual ela não mantém qualquer contato, de quem não sabe nada além do nome, em duas mil e quinhentas palavras ou mais, transformando tudo numa grande novela com direito a pausas dramáticas e suspense narrativo. Tudo isso para te informar sobre uma desventura qualquer ocorrida com alguém com quem você não se importa.</p>
<p>Pergunte a um homem sobre um problema familiar e ele o resume em uma frase, com dez palavras, no máximo: &#8220;Meu pai está doente.&#8221;, &#8220;Meu tio faleceu&#8221;, &#8220;Meu primo precisa de um transplante de rim&#8221;. Uma mulher, não. Pergunte sobre uma ligação que ela recebeu e ouça uma explicação sobre todas as conexões sentimentais do caso - que, na cabeça dela, não terminam nunca - e um grande e incompreensível contexto familiar, antes de finalmente saber que a tia-avó por parte de mãe de uma prima dela por parte de pai descobriu um caroço no seio, mas felizmente não era nada, apenas um calo causado por um apoio do sutiã ou algo do gênero. Elas não podem dizer &#8220;Foi só um susto besta com uma parenta da Joana que achou que tinha câncer, mas não tem.&#8221;. No sindicato delas, isso é certamente um tipo de crime, vai contra alguns protocolos, constitui quebra de decoro ou coisa parecida.</p>
<p>A caminho do bar, onde pretendem encontrar um casal de amigos, ela há de fazer uma gigantesca preleção sobre os problemas de relacionamento da tal amiga, em vez de dizer &#8220;A Maria descobriu que o Cláudio tava comendo a Priscila, então não pergunte sobre a irmã dela&#8221;. E você, camarada, ignorando tudo o que for dito além da terceira frase da história, caminha a passos largos para uma gafe monumental.</p>
<p>Porque, veja só, diante de tamanha prolixidade, tamanha falta de objetividade, tornou-se uma questão de sobrevivência, um recurso masculino meramente darwinista, ser capaz de imergir em questões mais prementes, na esperança - vã - de que, em algum momento, ela se canse e cale a boca (não vai acontecer, acredite). Ela menciona a Maria e o Cláudio e você começa a pensar no quanto a Maria é xarope, em todas as boas piadas que tem pra contar ao Cláudio, lembra que a Maria devia levar a Priscila, a irmã recém-pós-adolescente dela, com aqueles peitos teen ousados e arrogantes, que desafiam a gravidade sem a ajuda de sutiãs, e assim, de repente, está ocupado em uma orgia mental envolvendo a Priscila, ela, a Scarlett Johansson, a Alizée e outras quinze mulheres, enquanto ela fala ininterruptamente, até chegarem ao bar.</p>
<p>Onde você, néscio, inevitavelmente pergunta pela Priscila.</p>
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		<title>Palavras de Werther</title>
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		<pubDate>Mon, 12 Jul 2010 10:28:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro</dc:creator>
		
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		<category><![CDATA[literatura]]></category>

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		<description><![CDATA[Se ao menos disséssemos a nós mesmos todos os dias: o que devemos fazer por nossos amigos é respeitar seus prazeres e aumentar-lhes a felicidade, compartilhando-a com eles. Quando a alma de alguém é atormentada por uma paixão inquieta, torturada pelo sofrimento, você será capaz de proporcionar algum alívio a esse ser alquebrado pela dor? [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<blockquote><p>Se ao menos disséssemos a nós mesmos todos os dias: o que devemos fazer por nossos amigos é respeitar seus prazeres e aumentar-lhes a felicidade, compartilhando-a com eles. Quando a alma de alguém é atormentada por uma paixão inquieta, torturada pelo sofrimento, você será capaz de proporcionar algum alívio a esse ser alquebrado pela dor? E quando a última, a mais dolorosa doença surpreender a pessoa a quem você atormentara na flor de seus dias, quando ela estiver prostrada na mais deplorável debilidade, quando seu olhar quase extinto se voltar para o céu, o suor da morte umedecendo-lhe a lívida fronte, e você ali, de pé ao lado do leito, vir-se a si próprio como um desgraçado, certo de que seu poder é agora inútil, a angústia penetrará até o fundo de sua alma, e o conduzirá ao desejo de renunciar a tudo para fornecer à criatura agonizante um pouco de serenidade, uma centelha de coragem.</p></blockquote>
<p>Esse é o velho Goethe, me aplicando uma severa bordoada no cognitivo.</p>
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		<title>No Surprises</title>
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		<pubDate>Tue, 06 Jul 2010 20:19:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[musica]]></category>

		<category><![CDATA[youtube]]></category>

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]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><center><object width="350" height="287"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/sXKDL6WD9CQ&amp;hl=pt_BR&amp;fs=1?rel=0&amp;color1=0x3a3a3a&amp;color2=0x999999"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/sXKDL6WD9CQ&amp;hl=pt_BR&amp;fs=1?rel=0&amp;color1=0x3a3a3a&amp;color2=0x999999" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="350" height="287"></embed></object><center></p>
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		<title>Das Cruzadas</title>
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		<pubDate>Thu, 24 Jun 2010 14:00:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[burrice]]></category>

		<category><![CDATA[dialogos]]></category>

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		<description><![CDATA[[Originalmente publicado em abril de 2003]
– Pedro, me dá uma ajuda?
– Claro. No quê?
– Ignorante. Com seis letras.
– Hein?
– Nas palavras cruzadas, pô. Ignorante, com seis letras.
– Pode ser néscio, beócio, obtuso ou bronco.
– Começa com b.
– Deixa eu ver.
– &#8230;
– É beócio.
– Como você sabe?
– Porque o paraíso da bíblia é o Éden, e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>[Originalmente publicado em abril de 2003]</p>
<p>– Pedro, me dá uma ajuda?<br />
– Claro. No quê?<br />
– Ignorante. Com seis letras.<br />
– Hein?<br />
– Nas palavras cruzadas, pô. Ignorante, com seis letras.<br />
– Pode ser néscio, beócio, obtuso ou bronco.<br />
– Começa com b.<br />
– Deixa eu ver.<br />
– &#8230;<br />
– É beócio.<br />
– Como você sabe?<br />
– Porque o paraíso da bíblia é o Éden, e bronco não tem e.<br />
– Ah. É verdade.<br />
– &#8230;<br />
– Como é mesmo a palavra?<br />
– Beócio.<br />
– Como se escreve isso?<br />
– Ai, meu ovo.<br />
– Com s ou com c?<br />
– Com c, néscio.</p>
<p>***<br />
– Pedro&#8230;<br />
– O que foi dessa vez?<br />
– Me ajuda aqui.<br />
– Escuta, quer que eu faça as palavras cruzadas pra você?<br />
– Ah, deixa de sacanagem. Só mais essa vez.<br />
– Fala.<br />
– Auto-biografia famosa, com 9 letras.<br />
– Eu me odeio, por Pedro Nunes.<br />
– Bah. Babaca.<br />
– &#8230;<br />
– Mas ia vender um bocado.<br />
– Só pelo título.<br />
– Você tem tino comercial.<br />
– Obrigado. Mamãe diz a mesma coisa desde o dia em que troquei suas córneas no mercado negro por uma moto Honda, uma torradeira elétrica e um cão para cegos.<br />
– Você vai citar meu nome no livro?<br />
– Provavelmente.<br />
– Quero 20% dos lucros pelo Best-Seller.<br />
– Vou declarar que você não consegue fazer palavras cruzadas nível Moleza sem pedir ajuda.<br />
– Então quero 40%.</p>
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		<title>Black Burning Heart</title>
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		<pubDate>Fri, 11 Jun 2010 06:50:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro</dc:creator>
		
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		<category><![CDATA[saudade]]></category>

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		<description><![CDATA[Forgotten my way home
Forgotten everything that I know
Everyday a false start, and it burns my heart
I know
Everything you said was right, and I suppose
Everything is here forever, &#8217;till it goes
]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Forgotten my way home<br />
Forgotten everything that I know<br />
Everyday a false start, and it burns my heart<br />
I know</p>
<p>Everything you said was right, and I suppose<br />
Everything is here forever, &#8217;till it goes</p>
]]></content:encoded>
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		<title>De tigres e ciborgues</title>
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		<pubDate>Thu, 27 May 2010 13:00:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[antiguidades]]></category>

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		<description><![CDATA[É curioso como a gente mantém uns hábitos desde a infância, sem se dar conta. Quando comecei a jogar videogames, em&#8230; sei lá&#8230; 1987, acho, ao ganhar meu primeiro Atari (na verdade um sucedâneo do Atari, uma plataforma 8bits de uma tal APPLE, mas que rodava os mesmos cartuchos), meu conhecimento de inglês inexistia. Logo, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>É curioso como a gente mantém uns hábitos desde a infância, sem se dar conta. Quando comecei a jogar videogames, em&#8230; sei lá&#8230; 1987, acho, ao ganhar meu primeiro Atari (na verdade um sucedâneo do Atari, uma plataforma 8bits de uma tal APPLE, mas que rodava os mesmos cartuchos), meu conhecimento de inglês inexistia. Logo, os jogos que não tinham títulos traduzidos eram lidos de forma literal, tipo RIVERRAIDE (depois, com uma correção de um dos meus primos, virou Riverreide, como falo até hoje). Frostbite não era &#8220;frostbáite&#8221;, mas &#8220;frostibite&#8221; mesmo, e por aí vai.</p>
<p>Com o tempo é claro que algumas coisas se resolveram. The Lucky Dime Keeper, por exemplo, um dos - poucos - jogos que tive pro Game Gear, eu chamava de &#8220;Deluqui dimiquépe&#8221;. Não perguntem de onde saiu isso. E, como muitos outros guris da minha idade na época, chamava os golpes de Street Fighter por nomes bizarros, tipo TÁIGUER-ROBOCOP, RALEQUIFUL e TRATRATRUGUEN, no lugar de Tiger Uppercut, Sonic Boom (se bem que eu não consigo ouvir o Guile falando Sonic Boom até hoje) e&#8230; bom, e tratratrugen. Os nomes dos personagens dos jogos também levavam seus petardos. Street Fighter, pra permanecer no exemplo, está cheio deles: Guile (em vez de &#8220;Gáiou&#8221;), Zanguiéfe (em vez de &#8220;Zanguif&#8221;), &#8220;Mister Bison&#8221;, e por aí vai.</p>
<p>O negócio é que mantenho alguns desses hábitos. Não existe o que me faça chamar usar a pronúncia correta com Mortal Kombat, R-Type ou Phantasy Star. Earthworm Jim, Resident Evil, Fallout e outros jogos que conheci depois de mais velho, com um nível de inglês significativamente mais avançado, chamo pelo nome correto, com a pronúncia adequada, mas Pitfall nunca vai ser chamado com um inglês remotamente parecido com o nativo, tampouco consigo pensar em Donkey Kong ou Sonic ou nos personagens de MK usando a pronúncia correta. Já foi difícil me acostumar a chamar Altered Beast corretamente! E fico imaginando se acontece só comigo, até ver meus amigos se referindo a California Games como &#8220;Jogos de Verão&#8221; ainda hoje. Tenho quase certeza, aliás, que a maioria dos jogadores que vêm dessa época pescotapearia amigos que chamassem F-Zero de &#8220;F-Zírou&#8221; ou acertassem a pronúncia do Fury de Fatal Fury.</p>
<p>É uma questão de hombridade, até. Podemos admitir que Tiger Uppercut mude de nome, mas Keystone Keapers será, eternamente, &#8220;Polícia e Ladrão do Atari&#8221;, e chamar o Guile pela pronúncia certa será sempre viadagem.</p>
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		<title>Vizinhança barulhenta</title>
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		<pubDate>Tue, 25 May 2010 13:00:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[comida]]></category>

		<category><![CDATA[dialogos]]></category>

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		<description><![CDATA[Então eu moro ao lado desse mercado (cujo nome não vou dizer pra não fazer merchandising de graça, porque sou um blogueiro com grande influência na meritocracia informal da internet, capaz  de levar uma empresa de fundo de quintal a um lucro astronômico ou conduzir a Coca-Cola e o Mcdonalds à bancarrota. Megalomania, a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Então eu moro ao lado desse mercado (cujo nome não vou dizer pra não fazer merchandising de graça, porque sou um blogueiro com grande influência na meritocracia informal da internet, capaz  de levar uma empresa de fundo de quintal a um lucro astronômico ou conduzir a Coca-Cola e o Mcdonalds à bancarrota. Megalomania, a gente vê por aqui.). Ao lado MESMO, não é liberdade poética, igual à utilizada pelo pessoal do Formule 1 da São João, alegando que o hotel fica &#8220;ao lado do metrô república&#8221;. Vai caminhar da estação até o hotel (ao lado, logo ali) carregando uma mala de 12 quilos, simpatia.</p>
<p>Ao lado fica o meu ovo esquerdo do ovo direito, isso, sim.</p>
<p>Mas então. Ao lado, como dizia, também fica o mercado. Desço do prédio, atravesso a pista, tô lá. Como se não bastasse, o troço funciona 24 horas. O que significa que se, às 4h18m da manhã, eu sentir vontade de comer um pacote de passatempo recheado tomando toddynho, cato aqui quaisquer cinco realidades, visto uma roupa - porque sou adepto do nudismo domiciliar, embora não possa praticá-lo tão livremente quanto gostaria -, vou lá e adquiro minha dose diária de alimentos de alta caloria e pouco valor nutricional.</p>
<p>Isso engorda e certamente fode minha saúde de alguma forma, mas quem precisa ser magro e viver pra sempre nos dias de hoje? Dois mil e doze tá aí e, apesar de no creer en brujas, vamos pela lógica de que si, las hay. Se não houver, dou um jeito depois. Ou morro, o que certamente vai acontecer um dia. Antes morrer cedo a me privar dessas pequenas satisfações. Imagine se um mundo cão desses merece de você, amigo, o sacrifício de largar seu passatempozinho com achocolatado, alimento padrão das madrugadas? Não merece, convenhamos.</p>
<p>Mas nem só de biscoito recheado e toddynho vive o homem. Ainda existem os miojos, os iogurtes, os isoporitos, as pizzas congeladas, os chocolates (e se você nunca comeu um lindt sozinho, de madrugada, assistindo corujão, repense essa vida cretina que vem levando), etc, etc, etc. De vez em quando passo até pela seção de hortifruti e, raridade das raridades, compro umas frutas. Existe vida fora dos industrializados, afinal.</p>
<p>É claro que nem tudo são flores e é claro que eu iria começar a reclamar em algum momento (e este momento é agora). Morar ao lado desse mercado tem seus reveses, como parece evidente. O maior deles, e que considerei bastante inusitado quando me dei conta de sua existência, é que na parte de trás do prédio onde o mercado se localiza há um galpão, ou coisa parecida, onde acontece o abastecimento da loja. Até aí tudo ok. O problema é que aos sábados sempre vem uma gritaria desse lugar que não tem explicação lógica. Aparentemente a empresa promove alguma atividade em grupo ali, e não sei ainda se é um torneio de queimada, vôlei, dominó, purrinha, truco ou um clube da luta.</p>
<p>Já pensei em perguntar aos funcionários, numa dessas madrugadas. Sutilmente, claro. Algo na linha de &#8220;Ei, que porra é aquela gritaria do caralho que ouço do meu apartamento todo sábado à tarde e, às vezes, até durante a semana, à noite, vinda do galpão de vocês?&#8221;. Mas se for um clube da luta acho que não vão me contar o que acontece, porque você não fala sobre o clube da luta e tal, a menos que queira o Tyler Durden nos seus calcanhares (e você não quer o Tyler Durden nos seus calcanhares, vai por mim).</p>
<p>Numa dessas madrugadas, por volta de uma da manhã, estive lá pra comprar pão, presunto e queijo, porque me bateu uma necessidade gestântica de comer um bom sanduíche. Peguei os protéicos na parte de frios e fui atrás do carboidrático na padaria. Chegando lá, pães de todos os tamanhos e tipos e marcas. Pão integral, pão com centeio, integral light, aveia light, sete grãos, multigrãos, pão de leite, pão de milho, pão de manteiga&#8230; pão com o caralho a quatro. Estavam todos lá, era praticamente a PãoCon 2010. Mas não havia pão de forma, daquele normal. Abordei o repositor da seção.</p>
<p>- Ô amigo, com licença. Tô procurando um negócio, mas não tô encontrando.<br />
- Pois não, senhor?<br />
- Não tem mais pão pra homem aqui?<br />
- Pra homem?<br />
- É. Pão de forma sem viadagem. Pra homem.<br />
- O senhor quer dizer pão de forma puro?<br />
- Isso. Pão pra homem, pô.</p>
<p>Ele observou as prateleiras por alguns instantes - coisa que eu já tinha feito e poderia fazer novamente, sem ajuda - e concluiu que não havia pão pra homem ali.</p>
<p>- Mas será que nem lá no seu estoque tem?<br />
- Não, senhor. Os pães vêm direto pra cá.<br />
- Mas que droga. Meu namorado só gosta desse.</p>
<p>Tive que voltar pra casa sem meu pão pra homem.</p>
<p>(E troquei o presunto e o queijo por um pacote de doritos)</p>
<p>Ah, e o mercado é um Pão de Açúcar. Já posso mencionar o nome, pois Tio Abílio acaba de me ligar informando que fez um depósito na minha conta pela menção. Chupa, <a href="http://www.contraditorium.com">Cardoso</a>.</p>
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		<title>De cinema, futuros alterados, respeito tecnológico e outras viagens&#8230;</title>
		<link>http://www.utops.com.br/diabaquatro-i/</link>
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		<pubDate>Sun, 23 May 2010 18:30:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[antiguidades]]></category>

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		<category><![CDATA[filmes]]></category>

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		<category><![CDATA[religiao]]></category>

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		<description><![CDATA[Em 1990, eu era um guri de 9 anos, sobrinho de uma moça que trabalhava na cabine de projeção de um cinema. Na época - que nem vai tão longe assim, convenhamos, são &#8220;só&#8221; 20 anos -, existiam cinemas na rua: salas que não ficavam dentro de shoppings, mas &#8220;soltas&#8221; no meio da cidade, entre [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Em 1990, eu era um guri de 9 anos, sobrinho de uma moça que trabalhava na cabine de projeção de um cinema. Na época - que nem vai tão longe assim, convenhamos, são &#8220;só&#8221; 20 anos -, existiam cinemas na rua: salas que não ficavam dentro de shoppings, mas &#8220;soltas&#8221; no meio da cidade, entre outros comércios. As pessoas saíam pra ir ao cinema, não pra ir ao shopping ver um filme. Não que fosse melhor ou pior, só era uma experiência diferente, que não se tem mais (ao menos em Brasília), porque igrejas evangélicas - a Universal, em particular -, como se arrancassem jerusalém das mãos dos sarracenos, empreenderam uma cruzada pra comprar todas essas salas e transformá-las em centros de gritaria.</p>
<p><font size=1>(O que esses crentes não entendem é que não adianta berrar, chorar, arrancar os cabelos, dar chilique e fazer escândalo: se deus existe, é suficientemente sábio para nos ignorar e parece levar tal política bem a sério. Não posso culpá-lo. Eu também não ia querer conversa com a galera que trucidou meu filho.)</font></p>
<p>Dentre as várias vantagens de ter uma tia que trabalhava num cinema, a maior delas era que eu podia ver o filme quantas vezes quisesse. Se você acha que seu filho, sobrinho, irmão ou primo pode passar dias diante de um DVD, imagine se esse pivete tivesse à disposição uma sala de cinema inteira, com pipoca, doces e o diabo a quatro na bomboniere; com o som do projetor; com as poltronas confortáveis; com a tela que é maior do que o mundo; com o som que te faz mergulhar no filme; com tudo, tudo mesmo, até lanterninha, essa raça em extinção. Eu tinha. E, se deixassem, moraria lá dentro.</p>
<p>Aliás, a censura não era levada a sério na época. Não existia isso de vetarem a entrada de crianças por causa de uma besteira como &#8220;classificação indicativa&#8221;. Se ocorria, de algum modo sempre passei incólume pela regra, desde antes de ser sobrinho da moça da sala de projeção. Sendo o tal sobrinho, nem preciso mencionar.</p>
<p>Então, numa certa tarde de 1990, depois do colégio, minha mãe precisou comparecer a algum compromisso e me deixou com a tia Yone, que me recebeu na porta do cinema e me levou até a sala, já escura, recomendando que me comportasse. Quando relaxei no encosto da cadeira e olhei para a telona, a cena que se desenrolava prendeu minha atenção de imediato. O que começou com uma velha atravessando a rua tornou-se um assalto, seguido por um assalto ao assaltante, passando, daí, para a cena de um bando de sujeitos roubando uma loja de armas e metralhando impiedosamente um carro da polícia que se aproximou para impedir.</p>
<p>Era Robocop 2.</p>
<p>Devo ter assistido o filme de ponta a ponta umas três vezes. E diversas vezes mais nos dias seguintes. E, vendo Robocop 2 hoje, é curioso como tudo aquilo fazia sentido na época, mas fica fora de contexto atualmente. Todo o clima cyberpunk, com a cidade dividida entre os criminosos - querendo ver o oco -, a grande corporação - topando ver o oco, desde que possa lucrar com isso - e a população no meio, tendo que conviver com as putas, os motoqueiros, os bêbados, mendigos e baderneiros, procurando ajuda do governo, que se omite porque é corrupto, decadente e vendido a preço baixo para os executivos da OCP. Havia toda uma sinceridade nos filmes futuristas da década de oitenta que não existe mais hoje.</p>
<p>Entendam o que chamo de sinceridade como essa projeção pessimista do futuro, com a criminalidade atingindo níveis impensáveis e tornando um inferno a vida do cidadão comum, enquanto alguns poucos, abençoados com as graças da corporação, levam uma vida de luxo e tranqüilidade. Não se vê mais essa abordagem. O conceito futurista que temos, hoje, é das pessoas se tornando mais e mais inúteis em um mundo controlado por máquinas, e só.</p>
<p>&#8220;Matrix&#8221;, &#8220;Eu, Robô&#8221;, &#8220;Surrogates&#8221;&#8230; todos esses filmes retratam a mesma idéia, cada um a seu modo: as pessoas serão dominadas no futuro de maneira a não pensar por si mesmas, apenas reproduzir o que lhes é imposto, seguir sem questionar. Essa ameaça à liberdade individual é tão subjetiva que não há um levante criminoso, ou seja, não existe &#8220;o submundo&#8221;. Há - e sempre deve haver, ou não teríamos filme - algum(s) membro(s) da sociedade que se opõe(m) à ordem estabelecida. Mas é ridicularizado, via de regra, ainda que tenha (e sempre tem) razão. Assim, a divisão social torna-se clara, perde-se a área cinzenta. De um lado as pessoas normais, em seu comportamento de rebanho. De outro, excluído, uma pessoa ou grupo de pessoas. Some aquele grupo meio marginal, meio mainstream, aquele povo levando a vida no limite entre as contravenções e a ordem, sendo tolerado pela polícia apenas porque a situação é tão caótica que não vale a pena perder tempo com eles.</p>
<p>É curioso pensar que não é o estágio tecnológico que conduz as previsões desse tipo, mas o momento social e político. Por isso é difícil apontar outra possibilidade de futuro sem ser considerado pessimista ou utópico, da mesma maneira que, acredito, era complicado para os teóricos dos anos 80 desenvolver uma possibilidade que não envolvesse altos índices de criminalidade, ou para alguém da década de 50 pensar no futuro sem imaginar desastres atômicos e mutações causadas pela radiação decorrente.</p>
<p>Ainda assim, a tecnologia tem sua parcela de &#8220;culpa&#8221; nessas idéias. Se não estivéssemos tão sujeitos às máquinas como estamos agora, seria mais fácil conceber uma realidade na qual travássemos uma guerra furiosa com elas - como em Exterminador do Futuro - do que uma na qual elas nos dominam sem dificuldade, como em Matrix. O fato é que cientistas já identificaram positivamente que, à medida em que nos acostumamos às novas tecnologias, nossas capacidades vão diminuindo. Uma pessoa que tem todos os telefones que precisa anotados em seu aparelho celular tem menor capacidade de memorização do que alguém que não dispunha de tal recurso, há 20 ou 30 anos atrás. À medida em que as novas gerações têm maior facilidade para operar e entender novos equipamentos, terão maior dificuldade para operar e entender maquinário obsoleto.</p>
<p>O que quero dizer é que aquele teu primo molecote pode ser capaz de compreender e utilizar o telefone celular mais avançado da atualidade com uma mão nas costas, mas bota esse pequeno pústula pra operar o tracking de um vídeo-cassete e vamos ver se ele se sai tão bem.</p>
<p>Mexer em um sistema operacional com interface gráfica é mole. Quantas linhas esse inseto consegue avançar em um MS-DOS, se precisar operar um prompt de comando?</p>
<p>Até meu pai consegue jogar Wii. Pede pro seu irmão de 12 anos  descobrir qual é o objetivo no ET ou Superman do Atari.</p>
<p><font size=1>(note que essa previsão de um futuro limpinho e organizado funciona se considerarmos que os roteiros dos filmes são escritos e pensados em países limpinhos e organizados, ok? um roteiro futurista que se passasse no Brasil, por exemplo, escrito por um brasileiro, seria completamente cyberpunk oitentista, dada a situação que vivemos por aqui)</font></p>
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		<title>Textos Motivacionais I</title>
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		<pubDate>Thu, 06 May 2010 18:59:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[divagacoes]]></category>

		<category><![CDATA[misantropia]]></category>

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		<description><![CDATA[Você que está aí, meu amigo, minha amiga, preocupado com as vicissitudes da vida; considerando, consternado, as injustiças que essa existência vagabunda e piranhete joga em cima de você; tentando entender por que as coisas são assim e imaginando o que fazer para que elas fossem diferentes; ansioso atrás das soluções para os problemas que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Você que está aí, meu amigo, minha amiga, preocupado com as vicissitudes da vida; considerando, consternado, as injustiças que essa existência vagabunda e piranhete joga em cima de você; tentando entender por que as coisas são assim e imaginando o que fazer para que elas fossem diferentes; ansioso atrás das soluções para os problemas que lhe inquietam qual pregos n&#8217;alma, ouça minhas palavras:</p>
<p>Abra seu coração para Jesus, irmão. Abrace a mais falsa, fácil e cômoda explicação para todos os males. Adote o caminho hipócrita dos pseudo-cristãos que caminham entre nós. Seja mais um abilolado, fechando os olhos para as causas reais das coisas, acusando demônios e outras entidades indefinidas da mitologia moderna como os responsáveis pelas falhas humanas. Seu bolso será mais leve, sua consciência será aplacada de todos os pesos, sua vida tornar-se-á simples: seja escroto com as pessoas à vontade, peça perdão nos cultos e pronto. Aí está o seu salvo-conduto. O Nazareno te ama, mesmo você sendo um saco de merda.</p>
<p>Ou abrace o que você é (um saco de merda!), aceite que determinadas pessoas - quando não todas - nada mais merecem, senão as batatas, e tome para si o cargo de arauto da vontade universal. E daí se você não tem o livro da verdade? Ninguém poderá provar! Até que surja um volume encadernado na gráfica celeste, assinado pelo altíssimo em pessoa, com direito a dedicatória ao apóstolo Paulo, não haverá o que temer.</p>
<p>Ser escroto é saudável, meu rapaz. Pode não apaziguar a sua consciência, mas chutar no diafragma alguém que espera tudo de você, menos maus-tratos, é das sensações mais divertidas que existem. Não há maior demonstração de grandeza de espírito do que engrossar inesperadamente com as pessoas e passar o resto da vida agindo como se tivesse razão, mesmo não tendo. Retratação? É para os fracos. Amigos? Ter um milhão deles só vale a pena se cada um te der um real. Ou dez reais, pra quê pensar pequeno? Do contrário, pura perda de tempo. Corra atrás de dinheiro, é mais importante. Dinheiro há de te trazer todos os amigos que você precisar, todos eles bajuladores baratos, lambedores de ego, masturbadores da sua auto-estima. Do que mais uma pessoa precisa? Sinceridade? Oras. Sinceridade é contraproducente!</p>
<p>Minta! Minta descaradamente. Minta até mesmo sobre as coisas mais simples, mais triviais. Comprou um tênis preto? Diga que adquiriu um branco. Ou nenhum, que na verdade pagou mesmo foi por um par de mocassins. Vai sair e voltar cedo? Afirme que voltará tarde, diga para não te esperarem de pé. Brigue, ao retornar, porque todos estão acordados. Não interessa se são sete horas da noite, não aceite desculpas baratas! Minta, seja escroto, insista que tem razão.</p>
<p>Os cretinos contumazes são as pessoas mais admiradas, o mundo está cheio de exemplos disso. Aqueles que adotam o pesado fardo da justiça, da bondade, da generosidade, da humildade, aqueles que resolvem trabalhar suas qualidades e suprimir seus defeitos, a esses resta apenas o escárnio, o pouco-caso do homem comum, que, incapaz de escalar tais paredões, prefere apedrejar os que se aventuram a subi-lo a ser alvo de acenos de criaturas inatingíveis.</p>
<p>Ao ver, do alto da sua muralha de desumanidade, as pessoas comuns levando suas vidinhas comuns, faça o que qualquer criatura de bom-senso faria: cuspa. Isso servirá de incentivo para que todos sigam seu caminho, nem que seja para te alcançar e cobrir de porrada. Veja, então, como são amplas as possibilidades da vida e surpreendentes seus meandros: ao diminuir um suposto semelhante, é possível motivá-lo. O trauma constrói o caráter.</p>
<p>Os que não agüentarem, os que, alvejados por sua metralhadora de imprecações, vergarem como capim sob o vento, se deixarem abater, se tornarem deprimidos, tentarem se matar, não deixe que te façam sentir culpado. Pense em si mesmo como a entidade humana encarregada de aplicar o teste de seleção natural. Quem sobreviver é apto. Quem não sobreviver, não o é, e merece o destino que tiver, não interessa quão desagradável seja.</p>
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