Estava vendo dia desses o Arnaldo Jabor - que inclusive é um sujeito de quem eu não vou com a cara - falando sobre a tentativa de algumas facções do poder legislativo de impedir os procuradores da república de “procurar”.
Dessa forma, vários processos que estão tramitando no Ministério Público - o do Hildebrando Paschoal, o da máfia dos Vampiros, etc, etc, etc - seriam cancelados. Não, não é engavetados. Digo jogados fora mesmo, apagados dos anais (ui!) da justiça.
Fiquei imaginando a situação. Telejornais e rádios avisando que não há mais a possibilidade de qualquer mutreta ser desenterrada pelo MPU, analistas políticos dizendo que isso é uma pouca-vergonha, Ana Paula Padrão girando cinco vezes naquela cadeira dela, falando a respeito da nova lei e de suas (supostas) finalidades. A mídia discutindo a sacanagem, enfim. E imaginei as pessoas ouvindo tudo isso, assistindo a tudo isso, reclamando em suas casas, sentadas em seus sofás, impassíveis. Depois desligando a TV e indo dormir.
E eu imaginei, no dia do acontecido, um cidadão qualquer que, plenamente insatisfeito com essa falta de caráter legislativa, saísse conclamando as pessoas a seguir com ele até a frente do Congresso Nacional, onde reclamariam seu direito de saber quando um político se aproveita de sua situação para afanar dinheiro público ou passar por cima de seus compatriotas. Imaginei esse sujeito batendo nas portas das casas, apertando os botões dos interfones, parando outros cidadãos no meio da rua e dizendo pra todo mundo catar pedaços de pau, pedras e ir até a sede do poder para exigir justiça ou fazê-la com as próprias mãos.
E imaginei as pessoas, acostumadas a não reagir, dizendo pra ele que tinham mais o que fazer, que tomar uma atitude dessas não ia dar em nada, que não podiam segui-lo, que precisavam fazer o janter, que tinham outras urgências, como pegar os filhos na escola ou levar o cachorro pra passear.
E é uma situação de merda, porque o pior de tudo não é a falta de caráter dos políticos ou a péssima qualidade do gosto do eleitorado. O pior de tudo é que as pessoas não se comovem, não se juntam, não brigam, não vão atrás, não se interessam, não se fazem ouvir. Brasília tem dois milhões de habitantes, e se metade desse povo largasse tudo o que estivesse fazendo e fosse até o Congresso e gritasse e xingasse e brigasse e, diante da inevitabilidade, enfiasse a porrada em todo mundo lá dentro, ah, esses canalhas pensariam duas, três vezes antes de terem essa horrível certeza de poderem fazer o que quiserem, porque somos todos uns abestados.
E enquanto eu pensava nisso, e imaginava uma maneira de acordar as pessoas para a gravidade da situação, um brado gigantesco soou pela quadra. Gol do Flamengo.
Esse povo realmente não tem solução…

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