Gestão de guerra

Em plena aula de gestão de projetos - veja só, GESTÃO DE PROJETOS, ok? - meu professor de GESTÃO DE PROJETOS!, formado no ITA, milico da aerunáutica, começa a discorrer sobre como os militares estão sendo sucateados, e como isso é uma grande sacanagem. Palavras dele, juro: “Vejam a diferença entre o que os militares ganhavam há 30 anos e o que eles ganham hoje, entre os benefícios que tinham então e os que têm agora”. Aparentemente, alguém esqueceu de avisar esse camarada que há 30 anos os militares, graças a um golpe aplicado em 1964, mandavam e desmandavam nesse país, matando gente à revelia e expulsando compatriotas. Inclusive, vejam só que notável, aliando-se a OUTROS governos ditatoriais, de modo a trocar informações sobre esses mesmos foragidos. “Mate os meus que eu mato os seus”. Nada mais bonito, nada mais cristão.

De acordo com ele, a única forma de se impor, crescer e ganhar respeito é pela força - e não apenas militar, se considerarmos determinados exemplos citados e que me recuso a transcrever, pois não quero que imaginem que podem ser palavras ou idéias minhas. Ou seja, também não avisaram o cidadão que já criaram uma ferramenta chamada diplomacia, baseada em conceitos meio esquisitos, conhecidos como diálogo e acordo, e que pressupõe que é possível chegar a um consenso entre partes com objetivos dissonantes através do bom-senso, da educação e da boa-vontade. E que é nisso que se baseia um outro conceito - esse muito amplo, que figura entre outros de sentido igualmente indefinível, mas reconhecidos como princípios notáveis e calcados em sabedoria - conhecido como “civilidade”.

A partir desta premissa extremamente improvável iniciada pelo professor, alguns alunos sentiram-se livres para externar opiniões tão - ou mais - absurdas quanto. Surge, daí, uma grande discussão, embora discussão não seja o termo, visto que todos concordavam com todas as estultices expostas. Opiniões inesperadamente cretinas pipocam de todos os cantos, sobre a importância do poderio militar e a necessidade que um país grande como o Brasil tem de poder fazer guerra com outras nações da América Latina, caso venham a cometer a imprudência de desrespeitar nossos interesses.

O que eu deveria fazer, diante de um quadro desses, é intervir dizendo como tudo aquilo sendo dito é estúpido. Como a guerra é uma opção inaceitável, como a violência é injustificável, sob qualquer ponto de vista, e como um país bem-organizado troca conhecimento, tecnologia e soluções sociais, e não chumbo grosso e explosivos. Ou, sendo um tanto mais sarcástico, seria possível ironizar, falando sobre como a guerra é uma coisa bonita de se ver e como eu esperava que, nos próximos anos, o governo caísse em si, reforçando as forças armadas e retornando para elas o poder absoluto, as rédeas do país. Mais: eu também iria torcer, com todas as minhas forças, para que os filhos de todos aqueles que demonstravam tantos brios nacionalistas e tanto apreço pelo poderio bélico fossem à guerra, fuzilar uns gringos, estuprar umas mulheres estrangeiras, saquear espólios de guerra, dominar outros territórios e até trazer alguns escravos, por que não?

Poderia ter dito tudo isso, mas não disse. Levantei e saí de sala.
Com a estupidocracia não se discute.

2 Responses to “Gestão de guerra”


  1. 1 guto

    Não sei tu, mas eu me prepararia para comparecer à prova final munido de um cutelo. O paradigma justifica.

  2. 2 Cynthia

    Excelente seu texto, mas… será que não valia a pena ter falado - quero dizer na aula - ao menos um pouco desse seu pensamento não, Pedro ? Devo estar sendo ingênua, mas acho que se você conseguisse fazer uma única cabeça daquelas funcionar, um pouquinho que fosse, já valeria o incômodo. Pouca gente da sua idade (bah, de qualquer idade) consegue ter essa clareza sozinha, e qualquer ajuda cai bem…

    ;o)

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