Se você pensar bem, acaba concluindo que é um negócio muito, muito danoso.***
Todo mundo sabe que é perigoso. Canta-se a respeito dos riscos envolvidos, escrevem-se livros e mais livros tratando do assunto, temos acesso a depoimentos reais de quem já experimentou. Mas não damos ouvidos. Um dos maiores males da juventude é esse: achamos que sabemos tudo e que somos invulneráveis. Então topamos experimentar, crendo em nossa invencibilidade.
No começo somos cautelosos, até porque o primeiro contato causa certa estranheza. Com o passar do tempo vamos nos acostumando, ficando ousados, procurando novas formas de consumo. Nos agrada a sensação, é reconfortante, acolhedora. Esquecemos as mazelas da vida e o mundo, de repente, até parece ser um bom lugar. Ficamos eufóricos, ilimitadamente corajosos, incontrolavelmente alegres, rindo à toa. Perdemos a noção do tempo e do espaço e mudamos tudo: nossos planos, nossa rotina, nossa vida e nossa forma de pensar. Ao mesmo tempo, vamos sentindo cada vez mais necessidade do que obstrui tão convenientemente nossa visão e procurando por doses maiores e maiores. E, quando nos damos conta, toda nossa existência está baseada no vício. Com o tempo tornamo-nos distraídos, aéreos. É quando a situação começa a ficar feia. Só então entendemos o porquê de todos os avisos: a dependência muito grande, sentimos como se não pudéssemos viver sem. E realmente passa a ser impossível a partir de então.
Daí tentamos nos lembrar de como era quando não tínhamos aquilo. Sem sucesso: tudo o que encontramos são memórias obscuras de uma existência fria e solitária, algo que não desejamos, que nos assusta e do qual queremos fugir. Então procuramos com maior intensidade pelo que nos dá a sensação de acolhimento. A dependência aumenta exponencialmente.
Até o dia em que falta.
Ah, quando falta, que sensação horrível! A dor - aguda, lancinante, insuportável - chega a ser física. Queremos morrer, sumir, desejamos que o mundo exploda, que a terra nos engula. Choramos, entramos em depressão, ficamos um lixo, com raiva da gente, com ódio do mundo. Juramos, aos prantos, dentes cerrados, que nunca mais vamos querer uma migalha que seja daquilo. Amaldiçoamos o dia em que nos ofereceram e aceitamos. E sofremos por um longo e tenebroso período de tempo, até ficarmos desintoxicados.
Então nossa auto-estima volta, retomamos o ritmo e tudo parece em ordem. Como a Fênix, saímos mais fortes de dentro das cinzas. Um tanto envergonhados do nosso passado, é verdade, mas procurando não pensar a respeito e tocar a vida adiante. Mas dentro da gente, em algum lugar além do nosso alcance, uma vozinha ainda grita a plenos pulmões, clamando por mais uma dose, uma bem pequenininha, só pra matar a saudade. Tanto ela insiste que acabamos cedendo. “Dessa vez vai ser diferente”, pensamos, “agora eu sei com o que estou lidando, não vou tão longe. Eu páro quando quiser”. Qual! Pura balela! Logo depois estamos lá, como antes, afundados até o pescoço, sem conseguir pensar direito, rindo à toa e achando graça na vida. Viciados, dependentes e adorando cada minuto.
Tanta gente já morreu disso. Alguns simplesmente não se contentam com pouco e vão tomando doses cada vez maiores, abusando da sorte, até pagarem o preço por sua ousadia. Outros são extremamente dependentes e, diante da inevitabilidade de ficarem sem, preferem tirar a própria vida ou a de outrem. Muitas histórias tratando do assunto são célebres. Via de regra, trágicas.
E se você pensa que eu estou falando de drogas, errou feio.
Eu falo de amor.
Um sentimento tão semelhante a substâncias entorpecentes não pode ser boa coisa, convenhamos.
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Dizem que só depois de se ocultar - seja sob uma máscara, seja atrás de uma arma, seja sobre o poder - o ser humano mostra sua verdadeira face. E gosto de pensar que é verdade, embora atualmente tenha dúvidas a respeito. Meu alter-ego, por exemplo: é um romântico incurável. Nos 8 meses que passei sendo o Dr, acabei por escrever cerca de 4 textos sobre amor. Assunto que nunca me ocorreu tratar a respeito no Utopia.
Terei dentro de mim um latin lover latente?
Acima está um desses textos, como novidade para quem ainda não sabe por onde eu andei nos meses em que o utopia esteve parado e como lembrança para aqueles que freqüentavam o Laboratório Secreto.

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