Tenho, desde sempre, minhas ressalvas - se me permitem o eufemismo - em relação ao James Blunt. Nada nas músicas do cara me agrada: nem a letra, nem a parte instrumental, que dirá a voz dele. Acho que justamente por isso todas as canções desse cidadão colam no meu córtex feito taxista de plantão em ponto de traveco.
A última música dele, entretanto, conseguiu o impensável: despertou minha curiosidade. Alguma coisa naquela letra não me soou normal e resolvi avaliar de forma mais cautelosa. Então procurei a letra de Carry You Home e li com cuidado. Confirmaram-se minhas suspeitas.
A música fala a respeito de um assassino serial com hábitos curiosos, sobre como uma mulher em particular se fode nas mãos do sujeito e como ele permanece matando outras meninas com o passar do tempo. Analise comigo, camagada:
Uma moça - especialmente azarada - sai do trabalho um pouco mais tarde certo dia, e já é aguardada por alguém que a vem seguindo há algum tempo, talvez meses. Ela está cansada depois de tantos problemas no emprego e caminha com dificuldade. Ao fim do turno, informa os colegas que está indo embora e ninguém sequer se dá o trabalho de responder. Ela segue por vielas escuras do centro da cidade - Nova Iorque, como saberemos mais tarde -, entre dejetos e animais de rua, sendo ignorada pelos outros raros transeuntes com quem cruza.
E o maluco a segue discretamente à distância.
Trouble is her only friend
And he’s back again
Makes her body older
Than it really is
She says it’s high time she went away,
No one’s got much to say in this town
Trouble is the only way is down
Down, down
O psicopata ataca a moça pelas costas, passando-lhe um cabo de aço ou coisa parecida pelo pescoço, de modo a estrangulá-la. Ela começa a reagir bravamente e é isso que dá prazer ao facínora, que, embora esteja matando sua primeira vítima, atinge um grau inesperado de serenidade. Ela se debate e tenta gritar, mas é inútil: ele mantém o cabo apertado e aos poucos ela vai enfraquecendo. Em seguida ele observa tranqüilamente enquanto ela pára de respirar. A paz de espírito do assassino é tanta que, enquanto a moça exala os últimos suspiros, ele cantarola alguma coisa. Quando nota que o coração da vítima finalmente cessou seus batimentos, ele parte.
Levando o cadáver consigo.
As strong as you are,
Tender you go
I’m watching you breathing
For the last time
A song for your heart,
But when it is quiet,
I know what it means
And I’ll carry you home
I’ll carry you home
Enquanto isso, num devaneio kardecista, o espírito da moça, já devidamente desencarnado, vê a carcaça que o abrigou ser carregada pelo degenerado, mas é interrompido pela luz que leva ao pós-vida e a piedosa porém tonitruante voz de deus, que fica com pena da infeliz por um destino tão desagradável e lhe dá umas asinhas, como prêmio de consolação. “Foi uma merda de vida, eu sei, mas me agradeça porque acabou” e tal.
If she had wings she would fly away,
And another day God will give her some
Trouble is the only way is down
Down, down
O caçador da urbe, como convém à categoria, não se satisfaz com apenas uma vítima. Ele permanece à cata de moças jovens e saudáveis, que possam resistir - pero no mucho - à sua violência. Uma a uma ele as adiciona à coleção de defuntos no porão.
As strong as you are,
Tender you go
I’m watching you breathing
For the last time
A song for your heart,
But when it is quiet,
I know what it means
And I’ll carry you home
I’ll carry you home
E ele caminha por Nova Iorque noite após noite, escolhendo moças solitárias ao acaso e dando cabo da vida delas. Enquanto ele afoga mais uma menina com seu aperto de aço, uma bandeira americana tremula ao vento, alheia à tragédia. É essa recessão nos EUA, entende? O sujeito está desempregado e não tem nada melhor pra fazer! Um homem precisa se divertir de alguma maneira, afinal.
And they were all born pretty in New York City lights,
And someone’s little girl was taken from the world tonight,
Under the Stars and Stripes
Então ele continua matando e colecionando corpos. Não custa nada mesmo.
As strong as you are,
Tender you go
I’m watching you breathing
For the last time
A song for your heart,
But when it is quiet,
I know what it means
And I’ll carry you home
I’ll carry you home
Bela música, James Blunt.
Creepy motherfucker.

É a recessão, a troca de presidentes… imagina o quanto ele não se sentia mal toda vez que via o vazio do WTC? O cara tinha que sair matando todo mundo mesmo!
vc devia escrever roteiros para o law and order…
Melhor: Law and order Special Victims Unit!!!
Puxa! Pra ser sincera, eu não conheço essa canção - e a julgar pelo meu raso entendimento em James Blunt, isso não chega a ser Alzheimer - mas verdade seja dita, do pouco que eu já tive o desprazer de ouvir do repertório desse boboca - e de novo, a julgar pelo meu parvo entendimento em James Blunt, isso não chega a ser algo preocupante - essa letra aí é no mínimo “um bocado diferente, hein”.
Abraço :)
uma falta danada…
Ontem, finalmente descobri a melodia desta letra. E, Deus do céu, que sonífero poderoso!
James Blunt conseguiu atingir a ISO 9002 em matéria de tédio.
O menino é bom nisso, devo admitir.
Aperto de mão :)
E eu que sempre pensei que essa música fosse sobre um vampiro e a tal mulher que se fode na mão dele.
Masassim, quase a mesma coisa.
não conheço o músico, mas a análise de discurso ficou bacana (meio conan doyle, enfim).
Bem, mas não era isso que eu ia dizer. Hoje vim para lhe fazer um convite pedro. Estou produzindo matérias para meu TCC e gostaria de entrevistá-lo. O tema é a sua maneira de blogar.
espero sua resposta (positiva ou negativa) por e-mail.
inté,
=)
Você é insano. E é por posts como este (o post do atari também) que acompanho este blog há tanto tempo (alguns aniversários, certamente).
Cara, você fez falta enquanto estava “de mal” com o blog. Sério.
Abraços a todos.
Não ouço james blunt, por isso nunca analisei suas letras.
Provavelmente é algum desejo escondido, bem sidney sheldon ;)
hahahahaha
irada a tua interpretação!