Mas que merda!

Considerando a idéia que afirma que um corpo está ou não em movimento de acordo com o referencial, era a merda que vinha em minha direção. A passos largos, atrasada para o trabalho, quem sabe. Ou, pelo contrário, voltando depois de um dia cansativo, talvez. Ainda seguindo a regra do referencial, declaro que estava atento, mas ao meu dispositivo de doses individuais de música (ou mp3 player, chame como quiser). Seria o mesmo que dizer que estava desatento ao resto do mundo. Não a vi, portanto. Poderia me culpar por tal lapso, mas não vejo justiça nisso! Quem esperaria um presente desses vindo, pela calçada, apressadamente em sua direção?

Calçadas servem justamente para evitar esse tipo de contingência. É a última trincheira dos pedestres. O porto seguro de quem, num protesto mudo contra a tomada do espaço urbano pelos veículos automotores, insiste em sair a pé; daqueles conscienciosos o bastante para abrir mão de determinados confortos em respeito ao bem-estar do planeta; dos que conhecem os malefícios causados na atmosfera pelo monóxido de carbono; de quem adotou o saudável hábito das caminhadas num gesto de zelo para com sua saúde e a sobrevivência das gerações futuras; dos que não têm grana para comprar carro e gastar borracha da Goodyear, Pirelli ou Michelin, então compram tênis confortáveis e gastam borracha da Nike, da Rainha ou da Mizuno.

Se deus existe, está nas calçadas. Calçadas são o refúgio sagrado para onde vão as crianças, os desafortunados, os miseráveis. Se não tiver para onde ir, siga a calçada. Elas dão guarida a quem não tem o luxo de transitar por aí rodeado por toneladas de aço em alta velocidade; para os que respeitam a vida de seus semelhantes e preferem se distrair e esbarrar em outras pessoas sem matá-las, fraturar seus ossos ou destruir sua propriedade; para aqueles que não ligam para essa ladainha que afirma que todos devem ter pressa o tempo todo e preferem curtir a vida devagar e sempre em vez de se estropiar a 120 km/h contra um poste, ao tentar, ironicamente, aproveitar melhor o tempo que agora não têm mais; para quem não tem carteira de motorista aos 25 anos por se achar irritadiço demais para o trânsito.

Para isso servem as calçadas: para os pedestres, em sua aliança rebelde contra os carros. Para o trânsito de quem resolveu, qualquer que seja o motivo, andar. São, teoricamente, lugares seguros, onde ninguém deveria permanecer de orelha em pé, à espera da inevitabilidade de um acidente. Calçadas servem para que pessoas que trabalham perto de casa possam ir ao e voltar do escritório, a pé, em pouco mais de 10 minutos. Calçadas são para pessoas e apenas pessoas, daí serem feitas de concreto. Concreto é mais próximo que o ser humano tem de um habitat natural.

Vá dizer isso aos animais da Asa Norte que caminham com seus cachorros pelas calçadas, apesar de todos os gramados disponíveis.

Comprarei uma bicicleta e pedalarei pelas calçadas a fim de atropelar todos os cachorros que encontrar cagando nas vias públicas.

7 Responses to “Mas que merda!”


  1. 1 Paula Groff

    Sua cidade tem calçadas *.*
    Logo vê-se que você nunca veio a Búzios.
    Aqui rola mais ou menos assim: Pessoas na rua, pessoas em cima de carroças nas ruas, animais na rua, pessoas em cima de animais na rua, pessoas ao lado de animais na rua, pessoas em cima de bicicletas, pessoas caminhando ao lado de bicicletas na rua.
    Os carros ficam até meio acanhados.

    E porque raios os , tão fundamentais para a vida, só funcionam no preview do comentário e, depois da aprovação, são sumariamente espinafrados? Audácia.

  2. 2 Dael

    Caralho, que porra genial. Senti cheiro de Kerouac nessas linhas.

  3. 3 Paula Groff

    Eu devo entender que aquele espaço medíocre entre “acanhados” e “por que raios” é o resultado dos meus 3 br?
    E, porra, me descuidei no “porque”.
    E, porra, Kerouac é ruim pra caralho.
    E, porra, cuide de destrinchar as informações agora, seu filho da puta. ^.^

  4. 4 Dael

    Ah, ok. :)

  5. 5 daniel, o bastos

    nada além da vida como se apresenta.

  6. 6 Catavento

    haha…
    Tolo engano meu pensar que isso só acontecia em locais tão (in)civilizados, como minha (nem tão) bela metrópole São Paulo.

    Sim…paulista com muito orgulho.

    E me desce um chops e dois pastél, chefia!

  7. 7 Paula Groff

    Um dos maiores prazeres da vida é o de não esclarecer mal-entendidos. :D

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