O que motiva um ser humano a fazer esportes, afinal? Quero dizer, é óbvio que existe todo aquele ritual de ficar sarado, comer menininhas, se aproximar das gostosas marombeiras, comer menininhas, ficar naturalmente doidão graças a enormes descargas de endorfina na corrente sangüínea, comer menininhas, poder usar camisetinhas tipo “mamãe-sou-forte”, parar de comer menininhas e passar a comer gostosas marombadas, ficar saudável, comer gostosas marombadas, poder dizer que é capaz de correr trocentos quilômetros sem pedir arrego, comer gostosas marombadas, começar a se achar incrivelmente lindo e gostoso, parar de comer gostosas marombadas e começar a dar a bunda pra outros homens saradões que também se acham incrivelmente lindos e gostosos… enfim. O fato é que eu acredito que, de todo esse protocolo, nada consiste num motivo realmente válido pra alguém se matar em prol da tal “vida saudável” (fora comer menininhas, é claro).
Pô, fazer esporte é um saco. E por “fazer esporte” leia-se “ir à academia puxar ferro, suar feito Marcellus Wallace sendo enrabado por Zed no porão do Maynard e no dia seguinte ficar mais doído que um dançarino novato de balé que resolveu segurar um arabesco por sete horas ininterruptas para aperfeiçoar o movimento”. Não dá pra ver qualquer graça numa seqüência tão horrorosa que começa com esforços torturantes e termina em excruciante agonia. Nesse caso, por melhores que sejam os fins, eles definitivamente não fazem os meios valerem a pena.
Dia desses acabei esquecendo, por engano, de tirar alguns pesos da máquina onde faço minha série de abdominais. A única maneira de explicar o que senti ao fazer mais de 60 exercícios com muito mais peso do que deveria usar seria enfiando um enorme ovo de Fabergé na sua barriga apenas para arrancá-lo pelo seu umbigo minutos depois usando o magnétron mais poderoso do mundo.
Não, não é gostoso mesmo.
Isso sem contar as sensações lancinantes que me causam os outros aparelhos, que têm nomes sugestivos como “crucifixo” (depois dele, acredito que estou em maior sintonia com o velho Jotacê), “rosca tríceps testa” (e é de rosca mesmo), desenvolvimento (só se for pra desenvolver uma hérnia) e “remada” (esse te dá a sensação de ter sido atingido bem no meio do esterno por um enorme remo daquelas antigas galés).
É ruim, é ruim. Mas é óbvio que tem como piorar. Sempre tem. Não bastasse isso, minhas opções geralmente se resumem a prestar atenção nos diálogos (brilhantes, por sinal, como aquele que transcrevi outro dia - com certa liberdade poética, admito) ou na música (no geral composta por Jota Quest, Charlie Brown Jr., Pitty e pump it ups genéricos). Claro que, durante a ergometria - minha deliciosa meia hora diária de pedalada ou corrida desenfreada sem sair do lugar -, ainda tenho a opção de ver TV, que costuma ficar sintonizada na globo. Considerando o horário em que freqüento a academia quando vou sozinho, acabo pegando justamente os episódios do Big Brother.
Mas fui eu que decidi ir até aquela droga me matricular e pedir “Por favor, usem-me como objeto de descarga de princípios sádicos! Eu pago para que façam de mim seu capacho inteiramente submisso, disposto a encarar todo tipo de aparelho de tortura que, por puro capricho, os senhores quiserem me indicar!”, e agora vou levar as conseqüências de tão temerário ato até o fim (e torço para que seja rápido, porque já não há mais qualquer esperança de que seja indolor).
Cansado dessa via crucis diária, entretanto, nos dias em que, por qualquer razão, meu horário e o do meu primo Guilherme não batem, passei a levar uma leitura para o lugar. Lógico que é impossível ler e fazer supino ao mesmo tempo, mas durante a estúpida brincadeira de caminhar ou pedalar para chegar a lugar nenhum não há qualquer problema em manter um livro aberto na sua frente, prestar atenção no texto e manter a velocidade de pedalada/caminhada. E felizmente o tempo passa bem mais rápido quando você tem sujeitos como Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa, Arthur Conan Doyle, Fernando Sabino ou, por que não?, Mark Waid, Garth Ennis ou Brian Michael Bendis fazendo companhia.
As dores no dia seguinte permanecem, infelizmente.
Acredito que em pouco tempo as outras pessoas que freqüentam o lugar vão parar de me olhar como se fosse um alienígena toda vez que passo pela catraca levando um livro, além das costumeiras garrafa d’água e toalhinha.

você gooosta
que eu sei
haiuoauohaiohioah
Eu realmente preferiria que todo o processo não fosse tão desconfortável.
Mas é divertido fazer alguma coisa, pra variar. =)
Amei seu texto o.o
E confesso, ele só ajudou a desistir de me candidatar à tortura o.o
minha toalhinha é vermelha e tem uma estampa natalina.
Eu enjôo quando leio na esteira! :-(
Ou então tropeço e ameaço sair voando de cima dela…
Humm…. esse post me fez lembrar de uma galáxia muito, muito distante. Lá, eu era um calouro pós-adolescente que precisava perder 20 quilos. Como tempo livre não faltava (afinal calouro não estuda mesmo, só faz besteira), me matriculei pra frequentar a filial do inferno. Na época foi legal, e fiquei um ano. Anos depois, tentei retornar por três vezes, mas nunca mais deu certo.
Agora só faço exercícios respiratórios, soprando o fogão de lenha na hora de assar pizza. Funciona que é uma beleza!
Olha, eu até já tentei (algumas vezes) frequentar esse lugar infernal, mas nunca durou mais que 2 meses. Agora comprei uma esteira lá pra casa. Tava indo muito bem, mas… vou voltar a fazer hoje (prometi pra mim mesma). Bjs
pelo menos já tá comendo menininha?
Pedro, eu etendo a sua dor. E você sabe que eu sou uma pessoa velha e chata como você. Mas pense positivo:
Depois de 8 meses de academia eu ganhei 7kg de massa muscular e li Kafka, Marquez. Kundera e Foucault. Não desamine!
PS: Crucifixo é o meu preferido
Se vc nao pegar nenhuma menininha nunca vou poder te perdoar pela insistencia em voltar a um lugar onde tocam Charlie Brown Jr.