Nivelando

Quem lê isto aqui com especial atenção há de notar que me refiro ao que escrevo apenas como “texto”. Tudo o que você encontra no meu blog são meus textos ou a imagem de alguém, o vídeo de alguém, um trecho do livro de alguém, a republicação de alguma coisa escrita por alguém, que geralmente não é um “texto”. Textos são os meus.

Tenho certa antipatia por blogueiros que classificam as coisas que escrevem, a menos que sejam particularmente bons. A maioria não é, é apenas presunçosa. Não digo que não sou presunçoso, pois acho que seria presunção da minha parte, mas prefiro achar que não sou. Quando acho que estou sendo, geralmente concluo meu raciocínio com alguma coisa como “modéstia lá pra casa do caralho” ou coisa que o valha.

Mas, como dizia, são poucos os blogueiros que afirmam escrever crônicas, por exemplo, que escrevem crônicas de fato. A maioria, como eu, escreve “textos”. Ainda que sejam engraçadinhos, são apenas isso: “textos”. Não sei escrever crônica. Crônica é uma denominação um tanto indefinida, mas que só pode ser percebida quando o responsável pela reunião das palavras, das idéias, dos parágrafos, pelo “texto”, enfim, é muito, muito competente.

Eu escrevo textos. Quem escrevia crônicas era o Fernando Sabino. Tenhamos o devido respeito!

Também não gosto quando alguém diz que escreveu uma “poesia”, um “poema” ou qualquer coisa assim, por mais que tenha - ou não tenha - métrica e rima. Posso escrever um texto com métrica e rima, embora vá achar absurdamente difícil, e, ainda assim, no fim das contas, tudo o que terei será um texto bem organizado.

Poesia quem escrevia era o Carlos Drummond de Andrade. Olha o respeito!

Também não escrevo contos. Ter colocado o termo “conto” no título do último post, aliás, está me constrangendo mais e mais a cada dia que passa. Aquilo é, na melhor das hipóteses, se não for um “texto”, uma “narrativa”. E simplória, diga-se de passagem, daí o “trivial” a lhe titular. Conto não é pra quem quer, conto é pra quem pode.

Quem escreve contos é o Dalton Trevisan. Respeito, faz favor!

E quando, num certo momento, resolvo tergiversar* a respeito de assuntos que, via de regra, fogem ao meu conhecimento, mas sobre os quais me meto a falar ainda assim, o texto resultante é, se tanto, uma dissertação. Coisa que qualquer aluninho medíocre de quinta série sabe (ou deveria saber) fazer.

Ensaio, não, que quem escreve ensaio é o Roberto Pompeu de Toledo. Respeitem!

Se amanhã, por qualquer motivo absurdo, lançasse um livro (o que não vai ocorrer, não só devido a minha profunda falta de interesse nisso, mas também porque tal desinteresse é igualado por todas as editoras existentes no universo conhecido), uma história comprida, contada em duzentas páginas, o que eu teria em mãos? Um romance? Porra nenhuma. Um texto de duzentas páginas.

Quem escreve romances é o Gabriel García Márquez. Mais respeito!

Conheço blogs de crônicas, de contos, ensaios e poesias. Na lista ali do lado é possível encontrar vários deles. Mas a maioria tem apenas o que este aqui também tem: textos. Que podem até ser melhores que os meus. Geralmente são.

Mas são apenas isso.
Textos.

13 Respostas para “Nivelando”


  1. 1 Dael

    Presunçoso eu acho que não sou, não, mas você poderia pôr ao lado das suas referências de contistas, cronistas, romancistas etc. a categoria blogueiros e, do lado, adicionar meu nome.

  2. 2 Catavento

    Caralho…duvido que seja realmente modesto assim.

    Deve ser aquele tipo de cara que se acha modesto, mas que no fundo, no fundo, não é porra nenhuma…

    Tome-me por exemplo…

    (Adoro reticências…)

  3. 3 Pedro

    Catavento, é lógico que sou um sujeito modesto. Fosse de outra maneira e não seria perfeito. Sua incapacidade de perceber a vastidão da minha modéstia é que te torna tão inferior a mim.

    Mas não te culpo. Inferior a mim, todos são.

    Melhor colocar essa porra aqui antes que alguém leia essa porcaria e leve a sério:

  4. 4 gabi

    não foi o poeta português que disse que a literatura não é de quem escreve, mas de quem precisa? então eu chamo os seus textos do que eu quiser, certo? assim eu topo.

  5. 5 gabi

    putz, pensando com mais calma, acho que foi neruda que disse isso… enfim, potato, potato.

  6. 6 Pedro

    Sim, você é livre pra chamá-los como preferir. =)
    Só não espere que eu concorde, que aí é querer demais!

  7. 7 daniel, o bastos

    eu posso classificar meus textos com vários nomes feios, ah, sim.

  8. 8 ana cartola

    Pedro, seu email do Utops funciona? Você costuma verificar?
    Er… você viu meu email de uns dias atrás?

    Se sim, ignore este comentário e me xingue. :-)

  9. 9 Carolina Mendes

    Puxa, Pedro…acho que eu respeito muito menos. Escrevo pessimamente mal e sei disso; mas escrever é realmentente isso de precisar; eu morreria mesmo sem escrever!
    A classificação, pra mim, tem uma função menos importante no “texto” (ou “escritos”, rs, no meu caso), mas não com a poesia. Poesia é outra coisa, poesia não é prosa metrificada; por isso, acho essa diferenciação necessária. Como você, acho estranho isso de blogosfera, mas, ao mesmo tempo, gosto de saber que existem outras esferas além daquele mundinho literário de “textos” consagrados. E gosto daqui; e comento.
    Abraço.

  10. 10 Lontra

    Depois desse texto, fiquei até avexado para comentar aqui. Mas gosto bastante dos seus posts, não importa muito que nome você (ou qualquer outro) dê a eles.

  11. 11 Pedro

    Rapaz, não vejo razão para ficar ressabiado, sinceramente. Não tem nada a ver a anatomia com a indumentária, quero dizer, essa opinião que tenho sobre meus textos não tem nada a ver com minha reação aos comentários e vice-versa e assim assado e tal e coisa e coisa e tal.

    Tranquilize-se, pois.

  12. 12 ney

    mas se esse post anterior não é um conto, pq tem conto no nome?

  13. 13 Lontra

    A anatomia com a idumentária? Seria isso um eufemismo para “o que tem o cu a ver com as calças”?
    Gostei. Vou utilizar com mais freqüência.

Retruque!