Olimpiadas

(A falta do acento no título cria um trocadilho muito besta. Repare.)

Desde que o socialismo deixou de ser um contrapeso decente, uma “ameaça” real ao capitalismo, a situação só degringolou. Você veja, por exemplo, o evento atual na China, que já não é socialista, mas também não parece ter deixado de ser: Os caras têm uma puta trabalheira durante anos e anos pra montar trocentas quadras de todos os esportes com e sem bola, cubo-d’água, pista de atletismo, pista pra hipismo, a puta que pariu. As olimpíadas estréiam e o que a Rússia e a Geórgia fazem?

Começam uma guerra.

Esses (ex)socialistas andam meio desunidos, é foda. Baita desrespeito com todo o trabalho que os amarelos tiveram pra organizar os jogos olímpicos e silenciar todos os manifestantes querendo erguer placas, cartazes e vozes em prol dos nepaleses. Nossa sorte é essa nossa imprensa, tão séria e competente, tão boa em priorizar o que é prioridade e deixar de lado o que não tem muita importância. Graças a ela não temos que ficar vendo imagens de civis desesperados ao terem seus lares e familiares espalhados por quilômetros a fio, tampouco temos que ouvir declarações desses humanistas idiotas - o que essas pessoas sabem, afinal? -, querendo fazer longos e tediosos discursos a respeito do pega-pra-capar na Europa, dizendo que a guerra é a forma mais inaceitável de se conseguir alguma coisa e que a violência, longe de ser um argumento, é justamente a resposta usada na falta deles.

Nah, não temos que ver nada disso, ouvir nada disso, pensar em qualquer baboseira dessas. Que se danem os milhares de refugiados, assassinados, esquartejados, aniquilados, bombardeados, ensangüentados, injustiçados e arrasados moradores da Geórgia. Vão bombardeando eles aí, Russos, que existem coisas mais importantes na televisão. Temos que ver se a seleção de vôlei vai ou não ser campeã, ou se o Michael Phelps vai - surpresa das surpresas - bater mais um dos inúmeros recordes mundiais que detêm, se um sujeito em um barquinho a vela vai conseguir pegar mais vento que outro sujeito em situação semelhante, se uma mulher magricela com ombros mais largos que as nadadoras com peitão musculoso de homem vai ser capaz de, munida de uma vara, saltar sobre uma outra vareta, lá em cima, bem na casa do caralho.

Isso, sim, é bacana. Isso, sim, é entretenimento.

Olimpíada é uma vez a cada quatro anos. Guerra tem todo dia, pô. Não temos aqui a preocupante situação do Rio de Janeiro pra preocupar nossas preocupadas cabeças nesse preocupador sentido? Então.

O importante primeiro, pois. Dois minutos de guerra nos telejornais, quinze de sétimo lugar na natação feminina. Duas notinhas sobre os mortos e feridos nos jornais, um caderno e meio sobre badminton.

Acabando as Olimpíadas, se a situação na Geórgia persistir, poderemos reclamar da falta de bom-senso dessas pessoas que preferem despedaçar umas às outras a ficar na frente da TV, vendo esportes dos quais nunca ouvimos falar e esportistas que são as celebridades de hoje, os filhos preferidos da nação, os símbolos vivos do que o país representa. E os zés-ninguém de amanhã.

2 Responses to “Olimpiadas”


  1. 1 Léo

    Voltou, e voltou bem.
    Concordo do pé até as orelhas.

    Abraço!

  2. 2 Arno

    Hedonismo, egoísmo e visa movem o mundo.

    Visa, em particular.

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