Um cotovelo.
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Simone tinha olhos castanhos, de um castanho claro amarelado, uma cor que lembrava âmbar e parecia refletir a luz de forma ímpar, diferente de qualquer outra coisa que você já tivesse visto. Sentava-se meio de lado, cruzava as pernas e jogava por sobre os ombros, para seus interlocutores, aquele olhar capaz de corar até mesmo o mais desavergonhado cafajeste. Não fazia toda essa pose ritahayworthiana por querer, era algo involuntário. Tinha um charme que entornava em cada gesto. Não conseguiria contê-lo nem se quisesse.
Simone me fazia entender como era possível um homem se apaixonar por uma mulher de burka.
(Pra onde caralhos vai um texto que começa assim? Se não virar um romance - no sentido amoroso da coisa, não editorial -, torna-se uma tragédia. No meu caso, sempre tende para o segundo tipo de história.)
Ainda falando desses eventos cheios de esportes que ninguém sabe de onde vêm, pra onde vão e por que existem, ano passado, durante os jogos Panamericanos, respondi, nos comentários de um blog que não vem ao caso, a uma pergunta interessante: como alguém descobre ter talento para salto com vara?
Ciente de que boa parte das pessoas não sabe como tal vocação é descoberta, deixo aqui a indicação, para aqueles que quiserem se aventurar a fazer o teste. A esses, desejo muito boa sorte.
O teste de talento para salto com vara é aplicado junto com o teste de talento para badminton, o teste de talento para esgrima e o teste de talento para ingrediente da bonguy.
Você solta uma criança, munida de um cabo de vassoura, em um quadrado com cerca de 2 metros de altura, na companhia de um rottweiler raivoso.
Se a criança utilizar o cabo de vassoura para pular a cerca, vai treinar salto com vara. Se esperar o ataque do cachorro e, brandindo o pedaço de pau, jogá-lo para o outro extremo do quadrado, nasceu para o badminton. Se estocar o cachorro e conseguir afastá-lo, é um esgrimista nato.
Se for dilacerado pelo bicho, nasceu mesmo pra ser parte integrante de ração canina. Os restos são recolhidos e enviados para uma fábrica nas proximidades, onde serão devidamente processados.
Mais alguma dúvida?
O inquisitivo Doda também demonstrou uma dúvida, em seu blog, relativa às aplicações práticas e às regras da luta greco-romana. Explico, pois, como se dá tal modalidade do esporte: como vocês puderam notar - aqueles que perderam tempo assistindo a esse evento específico, logicamente -, os rounds na luta greco-romana começam de forma… hm… peculiar: um dos homens de colante prostra-se em decúbito ventral, ou assume uma postura acocorada, enquanto o outro, igualmente de colante, acochambra o primeiro carinhosamente. Quando o juiz apita, ambos começam a se debater. Vence, ao fim, o que for enrabado o menor número de vezes. Como tira-teima, a Organização Mundial de Luta Grego-Romana sugere que seja feito o teste da farinha.
A exemplo do que ocorre no jiu-jitsu, essa “luta” nada mais é do que o ritual de acasalamento dos homens sem-camisa. Os dois lutadores, atracados em posição de cópula, procuram decidir quem fará o papel de fêmea. A luta greco-romana, entretanto, leva certa vantagem, visto que os contendores alternam as posições, executando o tal troca-troca, tão rotineiro nas relações homossexuais.
Mas não falo por experiência.
(A falta do acento no título cria um trocadilho muito besta. Repare.)
Desde que o socialismo deixou de ser um contrapeso decente, uma “ameaça” real ao capitalismo, a situação só degringolou. Você veja, por exemplo, o evento atual na China, que já não é socialista, mas também não parece ter deixado de ser: Os caras têm uma puta trabalheira durante anos e anos pra montar trocentas quadras de todos os esportes com e sem bola, cubo-d’água, pista de atletismo, pista pra hipismo, a puta que pariu. As olimpíadas estréiam e o que a Rússia e a Geórgia fazem?
Começam uma guerra.
Esses (ex)socialistas andam meio desunidos, é foda. Baita desrespeito com todo o trabalho que os amarelos tiveram pra organizar os jogos olímpicos e silenciar todos os manifestantes querendo erguer placas, cartazes e vozes em prol dos nepaleses. Nossa sorte é essa nossa imprensa, tão séria e competente, tão boa em priorizar o que é prioridade e deixar de lado o que não tem muita importância. Graças a ela não temos que ficar vendo imagens de civis desesperados ao terem seus lares e familiares espalhados por quilômetros a fio, tampouco temos que ouvir declarações desses humanistas idiotas - o que essas pessoas sabem, afinal? -, querendo fazer longos e tediosos discursos a respeito do pega-pra-capar na Europa, dizendo que a guerra é a forma mais inaceitável de se conseguir alguma coisa e que a violência, longe de ser um argumento, é justamente a resposta usada na falta deles.
Nah, não temos que ver nada disso, ouvir nada disso, pensar em qualquer baboseira dessas. Que se danem os milhares de refugiados, assassinados, esquartejados, aniquilados, bombardeados, ensangüentados, injustiçados e arrasados moradores da Geórgia. Vão bombardeando eles aí, Russos, que existem coisas mais importantes na televisão. Temos que ver se a seleção de vôlei vai ou não ser campeã, ou se o Michael Phelps vai - surpresa das surpresas - bater mais um dos inúmeros recordes mundiais que detêm, se um sujeito em um barquinho a vela vai conseguir pegar mais vento que outro sujeito em situação semelhante, se uma mulher magricela com ombros mais largos que as nadadoras com peitão musculoso de homem vai ser capaz de, munida de uma vara, saltar sobre uma outra vareta, lá em cima, bem na casa do caralho.
Isso, sim, é bacana. Isso, sim, é entretenimento.
Olimpíada é uma vez a cada quatro anos. Guerra tem todo dia, pô. Não temos aqui a preocupante situação do Rio de Janeiro pra preocupar nossas preocupadas cabeças nesse preocupador sentido? Então.
O importante primeiro, pois. Dois minutos de guerra nos telejornais, quinze de sétimo lugar na natação feminina. Duas notinhas sobre os mortos e feridos nos jornais, um caderno e meio sobre badminton.
Acabando as Olimpíadas, se a situação na Geórgia persistir, poderemos reclamar da falta de bom-senso dessas pessoas que preferem despedaçar umas às outras a ficar na frente da TV, vendo esportes dos quais nunca ouvimos falar e esportistas que são as celebridades de hoje, os filhos preferidos da nação, os símbolos vivos do que o país representa. E os zés-ninguém de amanhã.
Fez-se necessário dar cabo dos que esburacavam meu prazer e minha motivação pra escrever. Não consegui acabar com todos, ainda, é lógico, mas boa parte já é história. O resto vai sendo removido do casco do navio à medida que for se mostrando necessário. Ou então retornamos esta embarcação pro cais novamente, caso outros naufrágios mostrem-se prováveis.
Agradeço aos que eu gosto e que, direta ou indiretamente, apontaram a minha estupidez ao fechar este blog. Sejam tolerantes: essas crises vêm e vão, mas de forma muito mais esparsa do que faziam antigamente. Façam a gentileza de vestir seus coletes salva-vidas, sim? Esse botezinho restaqüera torna a lançar-se.
Que venham as ventanias e as vagas. São elas que nos impelem, afinal de contas.
Ah, a lista de links foi sensivelmente reduzida. Os portos onde eu eventualmente atracava tornaram-se mais limitados, porque as pessoas, aparentemente, estão se tornando muito limitadas. Ou talvez o problema seja eu, mas quem é que sabe? O fato é que minhas recomendações mudaram, assim como muitas das minhas amizades, no decorrer desses 4 meses de ausência.
Minha vida, entretanto, não sofreu qualquer mudança significativa. Ao menos não por causa disso. Logo, essas pessoas se mostraram tão inúteis e dispensáveis quanto eu imaginava que elas fossem. Celebremos isso: a descartabilidade dos outros seres humanos nessa era de estímulos tão facilmente substituíveis!
Pronto. A onda de irascibilidade passou.
Desculpas envergonhadas aos que foram tão duramente atacados sem qualquer razão aparente durante minha fase viking. Gostaria de dizer que isso não vai se repetir, mas não tenho cara-de-pau suficiente pra contar uma mentira tão deslavada. Enquanto durar minha medicação, entretanto, prometo ser mais ponderado.
Os feeds voltaram ao que eram, não precisam mais vir aqui. Fiquem com seus readers fedorentos.
No mais, sem mais. Essa semana viajo, volto ali pelo dia 21 de abril. Não que você esperem atualizações diárias neste front, mas achei justo informá-los. Desejem-me boa viagem (não precisa ser nos comentários, intimamente já está de bom tamanho, os comentários servem pra quem quer me mandar tomar no cu). Voltando, prometo superar essa descomunal preguiça que me assola e escrever - talvez, a menos que o distanciamento acabe por jogar uma luz nas minhas idéias, apresentando-as como merdas sem precedentes - os dois textos que vêm circulando pela minha cabeça nos últimos dias semanas meses.
Até lá.