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Categoria (ou a falta dela)

Existem diversas formas de dividir a sociedade:

Destros e canhotos.
Bolcheviques e mencheviques.
Capazes e incapazes.
Those with loaded guns, and those who dig.

Mas, para mim, não há divisão melhor que essa:

Brasileiros que falam Wikipédia e brasileiros que falam “Wikipídia”.

E o segundo grupo merece empalamento.

Daltonismo ocular

A grande ironia da coisa toda é que na verdade eu tenho olhos castanhos.

Desonroso

Nunca entendi bem o conceito de “honra”. Sempre me pareceu uma daquelas palavras muito grandes e difíceis de definir, sujeitas a julgamentos variantes, a entendimentos que mudavam de pessoa para pessoa. Nunca usei, porque não via aplicação para uma palavra que, dita por mim com determinado significado, entraria com outro, completamente diferente, na cabeça de quem a escutasse ou lesse.

Mas numa dessas lições que surgem inesperadamente, acabei entendendo como a tal da honra funciona. E é mais ou menos assim: o favor que você faz a um amigo, o que quer que seja, é sem interesse nenhum e jamais será cobrado…

…enquanto ele for seu amigo. Se um dia essa amizade for pelo ralo, meu camarada, ah, aí é questão de honra: vá cobrar os favores que você fez. O canalha te deve, tem que pagar. Se não pagar, não tem honra!

Honra, resumindo, é algo parecido com aquilo que os políticos praticam por aí, um tipo de toma-lá-dá-cá. O que me leva a valorar como uma boa coisa a minha falta de interesse nisso, pois esse tipo de honra - e digo orgulhosamente, batendo no peito estufado - eu não tenho!

Espero continuar assim.

Uma Duas dúvidas:

A primeira é generalizada:
Quem de vocês, meus queridos anormais, andou colocando pedaços desta porra no stumbleupon?

A segunda é específica:
Você come merda?

Astro(i)lógico

Eu caio num blog. O último texto publicado, figurando no topo da página, é sobre “Into The Wild”, com aquela foto sensacional do Emile Hirsch sobre o ônibus abandonado.

E é um show de baboseiras, uma atrás da outra. Chego ao fim, perplexo, e vou, por curiosidade, ler o perfil do dono do blog. Que começa, vejam só, com o signo do cidadão.

Com o signo.
A pessoa se define assim.

Pelo signo.

Essa carência protéica na primeira infância definitivamente fode as sinapses das pessoas até o fim da vida…

(e isso só me lembra Big Bang Theory:


Penny: Eu sou de sagitário, o que provavelmente diz a vocês muito mais do que precisam saber…
Sheldon: Sim. Nos diz que você participa da cultura de ilusão em massa que acha que a posição aparente do sol na hora do seu nascimento em relação a constelações definidas arbitrariamente de alguma maneira afeta sua personalidade.

Hora do café

- Um café, por favor.

E corrigiu:

- Um expresso!

Escolheu uma das mesinhas vazias, sentou-se mal e mal na banqueta. Sentia-se incomodado sobre aquela torre balançante, a base fina simplesmente não lhe inspirava confiança. Mantinha o pé esquerdo no chão, por via das dúvidas.
Tirou da pasta que trazia a tiracolo um jornal muito dobrado e pôs-se a ler, cotovelo apoiado na mesa, queixo apoiado na mão, resmungando qualquer coisa de tempos em tempos. O café chegou. Ele agradeceu a moça que trouxe e voltou a atenção para o jornal. Sem tirar os olhos da folha, sacou do bolso da camisa um maço de cigarros, tirou um com a boca e, enquanto tateava as calças em busca do isqueiro, cruzou olhares com uma garçonete mais velha, que parecia ser responsável pelo lugar. Com o cigarro pendendo no canto da boca, fez cara de criança surpreendida no meio de qualquer arte. Perguntou, sem-jeito:

- Não pode, né?

Ela meneou a cabeça, ainda mais sem-jeito, talvez por ter que negar a um cliente um prazer que não incomodaria ninguém – o lugar estava praticamente vazio, havia apenas um casal numa mesa suficientemente afastada, que sequer parecia notar a presença do homem, e uma moça, também distante, que o observava com certa ansiedade.

- Não pode, moço, tem aquela lei que proíbe. Eu também fico doida por um cigarrinho entre um café e outro, mas fazer o quê? Se aparecer um fiscal aqui, é multa na hora.

Sorriram um para o outro com ar tristonho, como quem identifica um cúmplice que cumpre pena na cela ao lado. Ela voltou ao que quer que estivesse fazendo, ele deixou de procurar o isqueiro. O cigarro permaneceu na boca, como estava, apagado, meio caído, ameaçando jogar-se no café. Qual suicida que, diante da impossibilidade de cumprir seu destino, preferisse morrer.
A moça, aquela que o analisava ansiosamente à distância, veio até ele. Chegando por trás, disse com uma voz que destilava o venenoso desprezo da mulher traída:

- Olha só quem resolveu aparecer!

Ele a olhou com surpresa. O cigarro efetivamente caiu, errou o café por pouco. Nenhum dos dois se deu conta do fato.

- Nossa, você por aqui! Quanto tempo! - e imediatamente repreendeu-se, pensando “Será que não tinha nada pior para dizer?”. Um segundo depois, entretanto, pareceu lembrar-se de todo o relacionamento que tiveram – das discussões, em particular. Seu rosto tomou um certo ar de segurança e enfado. O dela permaneceu fuzilando-o.
- Ai, que lindo! Ele é irônico! Quanto tempo, como vai você?

Falou como quem encontra um grande amigo, perdido há eras. Ele achou por bem ignorar o tom sarcástico da voz dela, na tentativa de conduzir o papo para outra situação além da que se avizinhava, potencialmente catastrófica:

- Eu vou bem, obrigado. E você?

Não deu certo. Ela permaneceu séria, falando gravemente, salivando fel:

- É mesmo muita cara-de-pau da sua parte falar comigo como se não tivesse acontecido nada!

Olhou em volta, buscando ajuda. Não havia ninguém, teria que se defender sozinho. Ela continuou.

- Você não teve a decência de me ligar!
- E por que eu teria que te ligar?
- Não me surpreende que você não saiba.

Esse ataque ferino aos seus conhecimentos das normas de interação com membros do sexo oposto – cartilha que já deveria ter sido escrita há eras, embora seja pouco provável que alguém a seguisse, visto que as variáveis são elevadas à enésima potência – tornou-o subitamente ofendido, acabando com seu ar simpático e jogando-o numa posição de contra-ataque:

- Foi você que terminou comigo!
- Por isso mesmo!

Coçou a testa, reprimiu um palavrão que chegou a sair pela metade: …taqueopariu! Para ele, aquilo não tinha muita lógica. Considerava que o dispensado não deveria tornar a ligar, essa era uma obrigação do dispensante, quer por caridade, quer por vaidade (a fim de verificar o estrago causado por sua decisão). Ela, entretanto, seguia outro tipo de regra:

- E você não foi homem suficiente pra aceitar.
- Como assim, não aceitei? Aceitei perfeitamente bem. Você disse “fim”, eu pensei “certo, então é o fim”. Toquei a vida.
- Você entrou em ne-ga-ção! - falou sílaba por sílaba em tom de voz elevado, como se ele fosse surdo. Ou idiota. Ou um idiota surdo. Ele finalmente largou o jornal sobre o mármore frio da mesinha, aborrecido. O café esfriava. O cigarro da boca fora para a mesa, daí rolara para o colo dele, donde fora para o chão, pela perna esquerda estendida.
- Não foi ne-ga-ção, foi a-cei-ta-ção.
- E meus e-mails? Você recebeu?
- Lógico que recebi.

Os olhos dela encheram-se de lágrimas. Disse com voz irritada e chorosa:

- E por que nunca respondeu?
- Você disse claramente em todos eles que não queria que eu respondesse!
- Mas você não entende nada? É incapaz de captar uma mensagem? Isso não era motivo para você ficar em silêncio!

Ele baixou a cabeça, correu as mãos pelos cabelos. Depois de seis meses de término, de paz, de distância e tranqüilidade, ali estavam os dois, em plena sessão de descarrego. Ele odiava sessões de descarrego, ela parecia adorar. Perguntou, como quem pede piedade:

- O que você quer de mim, afinal?
- Minhas cartas.
- Quer que eu devolva suas cartas?
- Não seja idiota! Quero saber se você recebeu!
- Ah! Também recebi.
- E leu?
- Li.
- Leu todas?
- Sim, li todas as suas cartas. Todas, todas.
- Do começ…
- Do começo ao fim!
- E não vai dizer nada sobre o que eu escrevi pra você, as coisas que eu disse, minhas razões pra desistir da gente? Não vai me deixar saber o que você achou?
- Parafraseando Roberto Carlos:
- O cantor?
- O cantor.

O olhar dela se acendeu com esperança. Ele, sempre tão insensível, estava na iminência de dizer algo realmente romântico, talvez até melodioso. Ele respirou fundo, soltou o ar lentamente, olhou-a nos olhos e, munido de toda sinceridade, soltou:

- Ri muito, bicho.

Ela ficou em silêncio por dez segundos. Dez segundos que duraram meia-hora. Uma hora. Quarenta dias e quarenta noites. Ficaram assim, olhos fixos um no outro. Ela, com toda a delicadeza de sua natureza feminina, esticou a mão, pegou a xícara de café e derramou no colo dele, que, temendo uma queimadura, assustou-se, quase caindo da banqueta (salvou-o a perna esquerda, firme no chão). À toa, porém: o líquido esfriara.
Entre os dentes, querendo chorar, querendo gritar, querendo arrancar os cabelos - dela e dele -, ela sussurrou:

- E não volte a me procurar!

Ele ficou ali, enquanto ela se afastava pisando com força. Finalmente deu-se conta da ausência do cigarro na boca. Pegou outro, sequer pensou em procurar o primeiro. Olhou de novo para a garçonete.
Ela se aproximou, sacou um isqueiro e acendeu o cigarro dele, usando-o em seguida para acender o seu. Soprou ruidosamente a fumaça do primeiro trago, olhou para a moça que sumia à distância, depois novamente para ele:

- Mulher é tudo louca, né?