Palavras de R

- […] Só existe uma realidade: beber! […] Vocês me perguntaram do bulevar, do cortejo, et coetera. Então, quer dizer que ainda vai haver uma revolução? Essa indigência de meios por parte do bom deus me espanta. A todo instante ele precisa tornar a untar o encaixe dos acontecimentos. Tudo emperra, a coisa não vai para frente. Rápido, uma revolução! O bom deus está o tempo todo com as mãos pretas desse sebo horrível. No lugar dele, eu simplificaria; não tornaria, cada vez, a montar minha mecânica, trocaria o gênero humano sem hesitação, tricotaria os fatos malha por malha, sem romper os fios, não teria nenhum expediente para imprevistos, nem repertórios extraordinários. O que vocês chamam de progresso funciona com dois motores, os homens e os acontecimentos. Mas, coisa triste, de tempos em tempos, o excepcional se faz necessário. Tanto para os homens como para os acontecimentos, a trupe comum não basta; entre os homens, é preciso haver gênios, e entre os acontecimentos, revoluções. Os grandes acidentes são a lei; a ordem das coisas não pode prescindir deles; e, em vista da aparição de cometas, seríamos tentados a crer que até mesmo o céu precisa de atores para suas representações. Quando menos se espera, deus prega um meteoro na muralha do firmamento. Uma estrela esquisita surge, sublinhada por uma cauda enorme. Isso faz César morrer. Brutos o ataca com um punhal, e deus com um cometa. Zás! Eis uma aurora boreal, eis uma revolução, eis um grande homem; 1793 em grandes letras, Napoleão em destaque, o cometa de 1811 no topo do cartaz. Ah! O belo cartaz azul, todo cravejado de fulgores inesperados! Bum! Bum! Espetáculo extraordinário. Levantem os olhos, palermas. Tudo está desgrenhado, tanto o astro como o drama. Bom deus, é demais, e não é o bastante. Esses recursos, tirados da exceção, parecem magnificência, mas são pobreza. Meus amigos, a Providência está reduzida aos expedientes. Uma revolução prova o quê? Que deus está na penúria. Dá um golpe de Estado porque há solução de continuidade entre o presente e o futuro, e porque ele, deus, não conseguiu equilibrar o orçamento. Na verdade, isso confirma minhas conjecturas sobre a situação da fortuna de Jeová; e, em vista de tanto apuro, lá em cima e cá embaixo, de tanta mesquinharia e avareza e sovinice e miséria, no céu como na terra, desde a ave, que não tem um grão de quirera, até mim, que não tenho cem mil libras de renda; em vista do destino humano, bastante deteriorado, e até do destino real, em situação embaraçosa, como testemunha o Príncipe de Condé enforcado; em vista do inverno, que nada mais é do que um rasgo no zênite por onde o vento sopra; em vista de tantos farrapos, mesmo na púrpura novinha em folha da manhã, no alto das colinas; em vista das gotas de orvalho, essas pérolas falsas; em vista da geada, esse diamante fingido; em vista da humanidade esfarrapada e dos acontecimentos remendados; e de tantas manchas no sol, e de tantos buracos na lua; e em vista de tanta miséria por toda parte, suspeito que deus não seja rico. Aparenta ser, é verdade, mas percebo suas dificuldades. Dá então uma revolução, do mesmo modo que um negociante, cujo caixa está vazio, esbraveja. Não se deve julgar os deuses pela aparência. Sob o dourado do céu, entrevejo um universo pobre. Até na criação há bancarrota. Por isso estou descontente. Vejam vocês, hoje é cinco de junho, já é quase noite; desde esta manhã espero que o dia chegue, e ele não chega, e aposto que não vai chegar. É uma falta de pontualidade de caixeiro mal pago. Sim, está tudo mal organizado, nada se ajusta a nada, esse velho mundo está completamente empenado, vou me encaixar na oposição. Tudo anda torto; o universo está implicante. É como os filhos: os que os desejam, não os têm, os que não os desejam, os terão. Em suma: isso me irrita. Além do mais, me dá aflição ver Laigle de Meaux, esse careca. Fico humilhado de pensar que sou da mesma idade que esse “joelho”. De resto, eu critico, mas não insulto. O universo é aquilo que é. Falo aqui sem más intenções e para desencargo da minha consciência. Recebei, padre eterno, os protestos de minhas sinceras considerações. […]

E pensar que comecei esse trecho pensando “E lá vem Grantaire com outro discurso xarope e enfadonho”. Acabou me fazendo rir descontroladamente em público, herege miserável. É dos poderes de Victor Hugo fazer com que os leitores apreciem ainda mais as passagens com as quais concordam pouco (ou nada).

1 Response to “Palavras de R”


  1. 1 Paula

    “Além do mais, me dá aflição ver Laigle de Meaux, esse careca. Fico humilhado de pensar que sou da mesma idade que esse “joelho”.”

    HAHAHAHAHA
    Ai, caralho. Não consigo pular linhas e separar decentemente o que quero falar nisso aqui. Mas entenda como uma grande risada, seguida de uma pausa e um resmungo. Em suma, nada de novo em meu front.

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