Passa gelol que passa!

Olá. Olá, você, que lê este blog sabendo com o que vai se deparar, sabendo que uma opinião que contrarie a tua te espera no próximo texto. Olá.

Senta aí um minuto, deixa eu te explicar um negócio. Tendo tempo suficiente aqui, você já leu isso algumas várias vezes e eu poderia apenas linkar ou republicar um desses textos que dizem o mesmo que será dito agora, mas por que perder a chance de exercitar minha verve, repetir o óbvio, “redizer” - e se o termo não existia, acabo de assinar seu decreto de criação - o que já foi exaustivamente dito? Vamos, deixa eu falar. Sentou aí? Tá confortável? Tá felizinho? Tá? Bicha!

Pois o caso é o seguinte: existem duas maneiras de ofender alguém: uma delas é você ofender a pessoa. A outra é a pessoa se ofender com você. E são coisas diferentes. Explico:

Você está usando um óculos wayfarer. Eu te abordo e digo “Ei! Ei! Por que tu usa isso, hein? É feio pra caralho, sério. Já se viu no espelho com essa porra? Já? Mesmo? E achou bonito? Certeza que não era daqueles espelhos que distorcem as coisas? Porque, cara… cara, olha só isso. Isso é feio pra caralho, cara. Tu acha mesmo isso bonito? De verdade? E merda, você come?”. Eu estou te ofendendo.

Eu, quieto no meu canto, ou ao ter minha opinião solicitada, digo que acho óculos wayfarer feio pra caralho. Que os anos 70 vão ligar e pedir o apetrecho de volta pra quem tá usando. Você se ofende. Você está se ofendendo.

No primeiro caso, qualquer aborrecimento é natural e justificável. Eu inclusive mereço levar um murro na cara por bancar a Annoying Orange. No segundo você está sendo uma bicha fresca do caralho e chilicando porque não acho bonita essa merda que vossa senhoria insiste em colocar na cara. Está alegando que emitir um juízo negativo sobre o que você usa é, sob algum aspecto absurdo e deturpado, uma maneira de te tolher, te impedir de ser feliz do seu jeito. Pois saiba: eu APÓIO o seu mau gosto. SEJA FELIZ sendo ridículo, se é o que te apraz. Ninguém, nem mesmo eu, tem o direito de te impedir de usar o que você quiser usar, vestir o que quiser vestir, andar com quem quiser andar. É seu direito e juro que sairia na porrada por ele, se necessário fosse.

Da mesma maneira, não há no mundo quem diga que não posso me manifestar negativamente a respeito das coisas. Uma crítica não é uma proibição, uma afronta ou uma ofensa, e é uma pena que qualquer um se sinta assim, porque esse é um sintoma de um defeito intolerável, grave, particularmente brasileiro: o melindre. Gente melindrada é aquela com quem você precisa pisar em ovos, ou eles pisam nos seus. É gente que tá sempre em carne viva, se deixa ferir por qualquer fagulha e não agüenta ser contrariada. Gente sem auto-estima, incapaz de fincar o pé no que acredita e dizer, ao ouvir tuas opiniões ruins: FODA-SE. Saber tocar um foda-se direito é essencial. Saber ignorar a opinião dos outros sobre o que você pensa, porra, isso é uma arte.

Eu ouço trocentas bandas criticadas duramente por 99% das pessoas que conheço. E ouço mesmo, e canto as músicas e tudo. Estão no meu last.fm e mando tomar no cu sempre que alguém vem encher meu saco por gostar daquilo. Mas não vou xingar quem, sem me dirigir a palavra, fala mal da parada. Sério, NO QUE isso afeta a minha vida? POR QUE DIABOS eu consideraria isso uma afronta? Qual a diferença, no plano geral das coisas? Que grande alteração na minha existência tem a opinião, a respeito do que escuto, de um camarada que mora na esquina da puta que pariu com a casa do caralho? MEU VIZINHO pode não gostar do que ouço e isso não muda em nada o fato de eu ouvir ou não.

Pra mim, minha opinião é superior. Meu gosto é superior. Você, se discorda, é um imbecil e tem mau-gosto. Não sabe de nada e eu sou o dono da razão. POR FAVOR, sinta-se da mesma maneira a meu respeito! Considere-me um imbecil e ESQUEÇA o que eu disse, se o que eu disse te contraria. Não vai me ofender ou me incomodar, juro. Isso não impede nossa convivência pacífica, isso não inviabiliza um diálogo amigável, ainda que cheio de provocações e piadas!

Mas não me venha cobrar satisfações, demonstrar magoazinhas ou querer mudar minhas idéias. Não tente. Gente melhor já falhou nessa empreitada. Você é um bosta e não vai conseguir. Me deixe em paz e prometo que não vou importuná-lo. Não esfrego opiniões na cara de ninguém, sequer ofereço. Solicita quem quer. E freqüentemente nego, inclusive.

Então, se tua opinião tá apoiada em palitos, se teus gostos são um castelinho de cartas e qualquer soprada mais forte joga tudo ao chão, se você precisa reafirmar suas razões de ouvir o que ouve, ler o que lê, assistir o que assiste, gostar de quem gosta, e etc, etc, etc, fica longe de mim. É mais saudável pra sua cabecinha. Vai se cercar dos seus amiguinhos que vão te aplaudir, invariavelmente. Se tranca na sua bolha e seja feliz.

Mas se tu güenta o tranco, se suas opiniões estão apoiadas em pilares e não se abalam com qualquer pancadinha, se você sabe que o que eu penso a respeito do que você curte é irrelevante, chega mais. É desse tipo de gente que eu gosto: de quem não toma as coisas pra si e entende que democracia não é eu não poder falar mal do que você acha bonito, mas o contrário. É você ter o direito de gostar do que eu não gosto e vice-versa.

6 Respostas para “Passa gelol que passa!”


  1. 1 Diego

    Concordo plenamente. Aliás, o Twitter é um antro desse tipo de coisa. Nêgo melindrado e sem capacidade de discernir entre uma ofensa pessoal e um simples comentário é o que mais tem naquela porra.

    Sabe, cê fala que não gosta de um óculos, como no caso do wayfarer, ou de uma banda, ou de um filme, ou de qualquer porra que o cara goste, e nêgo se ofende como se você estivesse chamando a mãe dele de rampeira de beira de estrada!

    Nêgo precisa entender que pessoas diferentes têm opiniões diferentes e que se ofender com isso é idiotice.

  2. 2 Gustavo C.

    O que me incomoda mais nessa história toda é que quem PRECISARIA ler um texto desses provavelmente não vai ler. E se ler vai ficar melindrado!

  3. 3 Amanda Ourofino

    Vc tem razão. Sempre teve.

    Sim, a carapuça serviu. E vc sabe que me disse esse tipo de coisa mais de uma vez.

    É muito difícil para mim não me ofender com qualquer coisa que digam que EU ACHO que é “contra mim”. E eu, de fato, odeio ser contrariada. Mas ao mesmo tempo, não tenho a opinião tão certa para apenas ignorar o que falam e me ater ao que eu acho a respeito. Sim, insegurança, baixa auto-estima, etc. Falta de identidade própria, eu ainda diria. Me apoio nos gostos dos outros. E não defendo as minhas opiniões.

    Vc tem razão. E essa ficha caiu pra mim não tem muito tempo (foi depois daquele bate boca no twitter sobre garotas de GO, uma vez). E, apesar de ser algo bem difícil pra mim, tenho feito um exercício para ser mais como vc, e menos como eu. Ou pelo menos poder defender os meus pontos de vista sem me ofender com qualquer coisa.

    Obrigada por esse post.

    A contracapa do livro que eu te dei continua valendo.

    Bjim

  4. 4 yoko

    hum. a lógica que faz com que um indivíduo tenha facilidade em aborrecer-se e irritar-se com textos/img/videos publicados na internet seria pela identificação e importância de si* (leitor) para com o objeto (rede social). como um jogo de espelhos, onde a leitura (inicialmente a parte do espectador) é encarada como sua, uma apropriação de valores.

    bytheway. “Foda-se”, costuma ser uma sentença bacana nestes casos.

    =)

  5. 5 gabi froes

    eu tive q ir no google ver o que eram esses oculos wayfarer. eu os chamo de “oculos do dado dolabella” pq ele usava na fazenda.

  6. 6 Israel

    Hahahahaha! Matou a pau!

Retruque!