Quem vê cara…

Não era nova o bastante para ser considerada adolescente, nem tinha idade suficiente para ser uma balzaquiana. Era uma jovem de seus vinte e poucos anos, muito bonita e com inteligência pouco acima da média. Seria desmedido dizer que atraía homens como o mel às formigas, mas também não os afastava.

Assim como seria correto afirmar que era intocada, uma virgem, seria igualmente injusto chamá-la por adjetivos impróprios. Tivera sua dose de relacionamentos infrutíferos. Alguns mais duradouros, outros efêmeros. Era bem vivida, na verdade. Tinha a bagagem que alguém de sua idade deveria ter nos assuntos do amor, do sexo e da convivência. Nem mais, nem menos.

Conheceu-o por acaso, em um jantar na casa de amigos, e foi arrebatada por aquele jeito alheio, o olhar longínquo, o ar sempre distante e o comedimento com tudo. Tudo, menos comer. O homem comia como um tigre faminto. O correto seria compará-lo a um abutre, pois não fazia restrições quando se tratava de culinária, mas tal paralelo soaria grosseiro, então fica como está.

Trocaram telefones e começaram a sair.

Ele levou algum tempo até perceber suas reais intenções, mas percebeu. Ela levou algum tempo até notar que seria necessário dar indiretas que de indiretas não tinham nada para trazê-lo ao encontro de seus anseios, mas notou. Depois de breve período de romance, ele revelou que também a havia notado no dia do jantar, que ficara encantado com sua presença, seus olhos vivos e seus comentários perspicazes.

Ela sabia, graças aos romances passados, que namoros se resumiam a duas coisas: fazer sexo e comer. E sabia que seu namorado era um legítimo bom-garfo e, também por isso, apreciava sua companhia nas refeições. Mas seu grande apetite lembrou-a de certas teorias que diziam que homens muito vorazes à mesa também o eram na cama, e não via a hora de tirar a dúvida.

Certo dia em que seu pai viajou - a mãe vivia alhures -, convidou-o para jantar em casa. Ele aceitou inocentemente, como um bezerro que caminha ingenuamente para o matadouro, sem saber que nas próximas horas tornar-se-á um suculento pedaço de vitela.

Chegou pontualmente e, com os trejeitos tímidos de sempre, sentou-se empertigado no sofá da sala, como um desempregado prestes a enfrentar seu futuro chefe. Recusou copos d’água, cafezinhos, refrigerantes. Por fim, aceitou um tira-gosto e uma taça de um merlot que melhorava na adega havia alguns anos. Assistiram à programação da TV a cabo entre carícias leves, que foram se intensificando até que o controle remoto foi ao chão com estrépito quando ele se levantou e, demonstrando surpreendente força física, ergueu-a pela cintura com um braço, enquanto, ávido, mordia-lhe o pescoço e abria o fecho do sutiã habilmente utilizando apenas três dedos.

Entre beijos, ela sugeriu que fossem para o quarto e ele a levou sem colocá-la no chão, acariciando seus seios com uma das mãos.

As teorias se provaram verdadeiras. O homem era, de fato, um incubus! Ele a deitou na cama com gentileza que não condizia com o modo fremente com o qual os lábios, língua e dentes percorriam seu pescoço, queixo, nuca, boca e orelhas. Retirou sua calça jeans com espantosa velocidade e apenas pedaços de sua calcinha foram encontrados no dia seguinte, espalhados por todo o aposento. A seguir despiu-se com igual velocidade e juntou-se a ela sob os lençóis.

O rapaz alternava carinhos insolentes com carícias de desmedida ternura. A língua dele percorria cada milímetro de seu corpo, suas sensações tão transitórias que era difícil compreender o que acontecia. Mas ela compreendia e adorava. Gemia de agrado quando ele, virando-a de bruços e mordendo-a das nádegas até o pescoço, sussurrava elogios despudorados em seu ouvido. Gemia duas vezes mais quando, no instante seguinte, com um movimento brusco, ele a girava na cama, colocando-a em decúbito dorsal, e trafegava por seu corpo com mãos ágeis apertando, afagando, arranhando e massageando, e com a ansiosa boca beijando, lambendo, chupando e mordendo. Chegava até seu baixo ventre, até seus grandes, gotejantes lábios, e, entre volteios calculados e investidas competentes com a língua, que a faziam estremecer, dizia obscenidades inenarráveis que, somadas à sofreguidão de seus gestos, faziam-na pensar que estava prestes a perder o juízo.

Em um instante lambia-lhe os pés, chupava-lhe os dedos, abocanhava-lhe os calcanhares. No próximo segundo já estava manuseando seus mamilos, mordiscando-lhe o púbis. Não lhe pedia nada, não lhe dava ordens, nada lhe perguntava. Perscrutava seu corpo como se lho pertencesse, e a essa altura do campeonato já pertencia. Ela apenas mordia os lábios, voluptuosa, gemia, urrava, gritava, implorava por mais, arranhava-se, agatanhava-o, raspava as paredes, desalinhava os cabelos, descontrolava-se.

Ele murmurou em seu ouvido, em dado momento, que iria apresentá-la à sensação de descer na maior montanha-russa do mundo e riu o riso sem-vergonha dos devassos. Em seguida jogou as duas pernas dela para cima e, introduzindo-lhe dois dedos, apertou algum botão - até então desconhecido a ela - que causou efeitos imediatos. Após intermináveis segundos que chegaram ao fim mais rápido do que gostaria, seu corpo inteiro convulsionou-se como que tomado por um surto epilético. Sentiu os lençóis encharcados com a torrente de satisfação que escorria entre suas coxas lânguidas.

Depois de tão violento orgasmo, deixou-se desfalecer. Chegou a sentir a vista escurecer e o quarto girar, mas ele, veloz, apertou seu pescoço num gesto agressivo de quem tenta sufocar outrem. O afogamento súbito, em vez de apagá-la de vez, trouxe sua consciência novamente à tona. Resfolegando, olhou para ele.

Os olhos, antes aéreos, pacíficos, estavam completamente diferentes. Fitava-a como um gato que observa a presa encurralada. Não havia nada do ar distraído de outrora, apenas o olhar decidido do agressor sobre a vítima. Tremeu de espanto, mas, mais do que isso, tremeu de prazer. E ele, após assediá-la com nova série de preliminares, penetrou-a com toda a pujança de seu sexo furioso, subversivo e insaciável.

Foi uma longa noite. Fizeram amor, sexo, transaram, foderam, fornicaram… deixaram-se levar pela luxúria. Entre uma rodada e outra da mais pura, feliz e realizada safadeza, atacavam a geladeira. O mesmo apetite que ele manifestava com a comida, dirigia a ela, a seus fluidos, a seus orifícios, a toda sua anatomia. Ela descobriu no próprio corpo algo entre doze a dezessete zonas erógenas, antes desconhecidas.

Passaram a dormir juntos quase todas as noites. O pai dela, um homem instruído, com boa cabeça, razoável, não interferia no direito da filha - maior de idade, responsável, inteligente - de dormir com o namorado. Inclusive lhe agradava a companhia do rapaz. Conversavam sobre esportes, música erudita, livros, notícias, assuntos gerais, enfim. Bebericavam dos bons vinhos da adega. Um semillon para acompanhar foie gras, um cabernet para melhorar a degustação de queijos e outros frios.

A moça ficava feliz em ver o pai se dando tão bem com o namorado, em notar como as conversas rendiam horas e horas de assunto e em ver como o apetite sexual vigoroso de seu parceiro não arrefecia. Era impossível se conter durante as intermináveis maratonas de descaramento e, não tivesse o velho sono tão pesado a ponto de resistir aos próprios roncos, amargaria noites insones ao som das sessões de ode aos prazeres carnais da filha.

Um dia marcaram de se encontrar na rua. Ele iria buscá-la na saída do estágio.

Chegou um pouco atrasado, alegando que perdera a noção do tempo durante uma reunião de membros de seu partido. Trajava uma camiseta do PFL. No vidro do carro, os inconfundíveis adesivos de apoio aos candidatos do partido da frente liberal: Arruda e Paulo Octávio.

Incapaz de tolerar tamanha sem-vergonhice, ela terminou o namoro dois dias depois.

13 Responses to “Quem vê cara…”


  1. 1 Juliana Bishop

    nham…dedos do pé (hum)
    :P
    hahhahahahaha
    vc é muito mau para com a vida amorosa alheia.

  2. 2 Umino

    Votar no PFL é foda, não dá mesmo!

  3. 3 Pedro

    Oras, o que e leva a fazer afirmação tão absurda, Juju? :(
    Hahahah

  4. 4 Adélia (que não é a primeira)

    ahahahahahah
    Muito bom!!!

  5. 5 Vanessa Mael

    Aplausos, muitos! O público se levanta! Aplaude mais! Muito, muito perfeito! Espero, apenas, que o ato não tenha ocorrido no inverno, e que a amoção não tenha passado o dia usando meias de algodão e bota de couro. O que poderia fazer a experiência um pesadelo, principalmente no momento no qual os pés foram os protagonistas da história!

  6. 6 Louis Ciffer

    Para espetaculos, so uma expressao: BRAVO! e, claro, Bis! Bis! Bis!

  7. 7 Lizi

    bom, muito bom.
    ;)

  8. 8 marconi leal

    No que ela fez muito bem. Afinal, uma moça deve exigir fidelidade. E, pelas simpatias políticas do rapaz, ele queria foder com todo o país!

  9. 9 Alfinete Elessar Odinsson

    aqui em sp, vc vota no psdb, elege o pfl e é governado pelo pcc- ou diga-se pt.
    mas o texto está excelente!

  10. 10 Lili

    Penso que devo plenamente assinar embaixo do que disse a ju. hahaha

  11. 11 Hikaru

    O_O BOA! Muito BOA!
    Não sei pq, mas no final eu chorei de rir…..mas tudo bem…

  12. 12 Lincoln

    HUAHAUHUhuahuahuHUAHuhauh UHAUHuahuHUAHuhauhUAHUhau hUHAUHuhauhUHAUhuahuaHAUH AUHAUHAUHAUHuhauhauahu!!!!!

  13. 13 Carol

    Muito,muito bom.

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