Tudo o que se ouvia na sala era uma respiração compassada, gutural e profunda, quase um rosnado, à qual, eventualmente, seguia-se o sorver leve de algum líquido e o tilintar de pedras de gelo contra o vidro. Os olhos acostumados à claridade demorariam algum tempo para enxergar o vulto do homem sentado na poltrona, imóvel, copo na mão esquerda, firme, olhar fixo na parede, implacável, pés batendo contra o chão, nervosos, punho direito fechado, tenso.
Chegara a uma certa fase da vida em que as coisas se confirmam como impossibilidades. Aquele momento, entre os 30 e os 40, quando chega-se à conclusão que a fama é só um delírio juvenil a ser esquecido e a fortuna não passa de uma impossibilidade. Quando se nota que a vida, ordinária, caminha para uma aposentadoria patética, rotinas tediosas e a mesmice nojenta que conforta o espírito dos conformados.
Passavam por sua cabeça todas as possibilidades que perdera. Talvez devesse ter entrado no exército, fosse designado para monitorar as fronteiras e vivesse uma existência emocionante, mesmo que mal-remunerada, lutando contra traficantes de drogas e caçadores ilegais. Teria cicatrizes profundas causadas por acidentes memoráveis, marcas de tiros e histórias para contar que prenderiam a atenção até do ouvinte mais dispersivo.
O exército talvez tivesse sido boa idéia.
Poderia ter-se tornado agente da polícia federal. Não correria o risco de levar mordidas de animais peçonhentos, mas iria atrás de figurões sem brios, teria altercações homéricas com aqueles que se achassem grandes demais para se submeter ao jugo da justiça, humilharia os poderosos, montaria emboscadas, estudaria evidências e teria sua inteligencia constantemente desafiada por criminosos brilhantes.
A vida na PF não teria sido ruim.
Deveria ter ido para outro país. Viver outra vida. Ser outra pessoa. Deixaria para trás todos os seus conhecidos e viveria no mais completo ostracismo. Faria novos amigos, constituiria nova família, esconderia suas raízes. Seria uma folha em branco, poderia se reescrever como preferisse. Passaria a pensar em outro idioma, modificaria suas lógicas, derrubaria suas certezas. Ergueria um novo eu das cinzas do esquecimento forçado de quem fora.
Pensava em tudo o que poderia ter sido e só lhe ocorria que desperdiçara sua existência com frivolidades. Tudo o que lhe disseram que era importante perdera completamente o significado. Seu diploma, emoldurado na parede, não queria dizer nada. Era só mais um atestado de mediocridade. Seu emprego, seu salário, sua casa, seu carro, seu casamento desfeito, seus filhos inexistentes, pré-abortados em camisinhas e pílulas anticoncepcionais, suas idéias, pré-concebidas, encontradas em livros de homens que sabiam muito mais do que ele jamais saberia. Eram nada.
Ele era nada.
Pensou em suicídio, mas até isso lhe pareceu lugar-comum em sua vida de clichês. Considerou deixar-se abater completamente, afundar na depressão, ceder ao alcoolismo, à s drogas, aos vícios, abrir mão do autocontrole e lançar-se na insondável inconsciência dos toxicómanos. Imaginava que ser tão patético poderia tornar sua vida mais divertida, quando foi desviado de seus devaneios existencialistas por um barulho no canto da sala, o raspar de unhas contra os tacos de madeira do chão.
Ganhara um filhote de cachorro há poucos dias. Presente de sua irmã, que identificou com sucesso seu estado de espírito. “É um bichon frisé”, ela disse, e justificou um presente tão trabalhoso argumentando que nem mesmo toda aquela rabugice resistiria ao bicho mais fofo do mundo.
E tinha razão. Ele acendeu a luminária e lá vinha o filhote, com passos trôpegos, arrastando a custo um pé de chinelo maior que si mesmo, esbravejando, como que tentando dobrar a vontade férrea de um inimigo inexorável. Assistindo à cena, ele sorriu. Gargalhou. Tomou o pequeno animal no colo, afagou sua cabeça, sua pelagem macia. O bichinho era um lampejo de jovialidade no ambiente melancólico do apartamento.
Jogou-o no liqüidificador. Ia ligar o aparelho quando se deu conta da loucura que fazia.
Bater algo tão sólido totalmente a seco provavelmente danificaria o motor e as lâminas do aparelho, então derramou também o uísque do copo que segurava, para facilitar o processo. Ligou o eletrodoméstico. Observou durante alguns minutos, enquanto a massa branca tornava-se rósea e, por fim, vermelha. Deixou a mistura rubra batendo enquanto recolhia as chaves para ir à padaria.
Resolveu começar a fumar. Se não fosse o primeiro passo para mudar sua vida, serviria ao menos como início da caminhada em direção à morte lenta e dolorosa dos cancerosos.

Caracas… gostei!
Bom, muito bom!
Muuuito bom..
credo!
que liquidificador e esse?
Era um modelo General Electric top de linha. Quer as especificações?
Começar a fumar é sempre uma boa alternativa!
Dá até pra fazer aquelas piadinhas retardadas:
O que é o que é que é branco, branco, branco, branco, vermelho, branco, vermlho, branco, vermelho, vermelho, vermelho, veremelho:?
R: Um bichon frise no liquidificador.
dã! :)
valeu. vou ver se ainda da pra suspender o pedido do walita juicer pq esse ai e mais bruto
Mas que sujeito mais “descachorrano”. Podia pelo menos encher o bicho de uísque antes, para que ele não sentisse dor.
Quanta maldade.
Hahaha. Ficou melhor ainda =D.
auahauhauha.
assim ficou melhor
oO
[Sim, eu faria um comentário inteligente, se nao fosse tão eu mesma.]
vc eh doente!
(nao, claro, que isso seja uma coisa necessariamente ruim)