Sempre achei tatuagem um negócio bastante idiota. Quando era adolescente via amigos meus literalmente implorarem aos pais para fazer uma e ficava me perguntando qual, afinal, era o propósito daquilo. Meu pai sempre disse que “se tatuagem fosse bom, nascia na gente”, e não posso dizer que não concordo com o velho, de certo modo, mas não é por sua inutilidade que implico com essas pinturas na pele. O que realmente me faz abominar o negócio é o fato de ser uma decisão vitalícia. Você faz uma figura indelével em si mesmo e vai carregá-la contigo até o dia em que os vermes devorarem sua carcaça.
Como é que alguém convive com algo assim? Como alguém passa 15, 30, 45 anos ou mais tirando a roupa para tomar banho e vendo ali, no ombro, na barriga, no peito, na perna, no antebraço, onde quer que seja, o mesmo desenho? Tem que ser um desenho muito bacana pra você não ficar de saco cheio dele logo, então todo mundo escolhe uma figura que acha muito, muito digna de se carregar no peito com orgulho. Mas aí é que reside todo o problema: como você sabe que daqui a 20 anos ainda vai achar aquela uma figura legal? E se, nesse espaço de tempo, vivendo, aprendendo, convivendo, você chegar à conclusão que carrega consigo um atestado de babaquice sem precedentes? Você nunca sabe se isso vai acontecer ou não um dia, isso de enjoar da figura que resolveu levar contigo até que a morte os separe, então como consegue se decidir a fazer algo assim? Simples: não reflete a respeito.
Por isso concluí que a primeira coisa que você precisa para fazer uma tatuagem é ser uma pessoa que não pensa muito.
E isso muita gente consegue, daí o motivo da procura por essas coisas ser tão alta.
Já discuti sobre esse assunto com inúmeras pessoas e o que ouvi, no geral, foi sempre que “tatuagem é uma forma de expressão”. Certo, e concordo, nunca neguei isso. É uma forma de expressão, ok, mas você vai passar vinte anos expressando a mesma coisa? E se sua filosofia de vida muda e aquele desenho perpétuo na sua pele não se adequa mais a ela?
Mas, mais importante que isso tudo: se tatuagem é uma forma de expressão, como classificar pessoas que expressam coisas que para elas não têm o menor significado?
Me refiro a brasileiros que tatuam coisas como tribais e kanjis. Símbolos de outras culturas que não dizem nada para quem carrega a pintura, muito menos para quem vê. Que tipo de “expressão” é essa, quando você não sabe o que está dizendo?
Bonita a figura, não? Mas o que quer dizer? Não faço idéia. E duvido que a maior parte das pessoas que leram, lêem ou lerão esse texto saibam o que esses dois símbolos estão dizendo. E muitas das pessoas que tatuam coisas assim em si mesmas também não sabem, nunca estudaram nada a respeito, e se você disser “Escuta, esse símbolo aí em você não é japonês nem quer dizer ‘amor’, é chinês e significa ‘morte’”, garanto que ficarão sem reação por alguns minutos. Quais são as sutilezas dessas imagens, afinal? E se o seu tatuador te garante que escreveu “Fé” na sua nuca, mas errou um traço e acabou saindo “Asno”? Como você vai saber? Pois é, não vai.
Eu entendo que uma jovem de uma tribo do norte do Zimbábue receba uma enorme tribal na barriga ao tornar-se púbere, como símbolo de que está pronta para se casar, porque ela e a comunidade dela sabem o que aquilo quer dizer, sabem exatamente o que significam aqueles tracinhos, pontos, curvas, estrelas, enfim, aqueles desenhos, que mensagem transmitem. Mas se uma pessoa me mostra uma tribal, minha primeira reação é perguntar “O que significa?”. E geralmente não significa nada. Dizem “Nada, eu acho. Achei bonito e fiz”.
Eu chamo isso de falta de inteligência, mas cada um classifica como quiser.
Piercings você coloca aos 16 anos. Aos 22 acha que são ridículos. Tira o brinco, o buraco se fecha e pronto. Fica ali uma cicatriz pequena, mas nada muito chamativo. Tatuagens, não. Você marca sua pele e aquilo vai contigo pro túmulo. Se mudar de idéia, pode fazer uma cirurgia para remover. Mas é tão trabalhoso… e pelo quê? Tanto dinheiro gasto… e com o quê? Que benefícios te traz uma coisa dessas, afinal?
Quem pára pra pensar antes de fazer uma tatuagem não faz.

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