Cara simpático, aquele. Sempre tratava todo mundo bem, andava por aí sorridente, cumprimentando a todos. Ajudava com os problemas, felicitava pelas realizações. Cheio de amigos, honesto, de confiança. “Esse aí é um tremendo boa-praça”, todos diziam.
Acordou certo dia sentindo-se meio estranho. Uma comichão esquisita na barriga, os músculos dos braços estranhamente rijos, um inchaço no peito, como se tivesse puxado ar demais e não conseguisse soltar. Os olhos se mantinham apertados e as sobrancelhas sempre crispadas.
Levantou-se para tomar banho. Passou pela empregada, que, sorrindo, o cumprimentou.
- Bom dia, senhor.
- Ahtománocu!
Espantaram-se, ambos. Ela por nunca tê-lo ouvido falando um palavrão. Ele porque simplesmente não dissera o que queria. Ia, como de hábito, cumprimentá-la também. Não sabia sequer de onde tinha saído aquela ofensa. Virou-se para a empregada e, sinceramente arrependido, resolveu se desculpar:
- Ahtománocu. Não ouviu, não?
A mulher, tão gravemente ofendida, fechou a cara na hora. Largou o rodo e o balde que carregava e foi embora, resmungando.
- Mal-educado. Pois que limpe a casa ele mesmo, esse grosso. Vou é pra justiça procurar meus direitos, ele vai ver só.
Ele, atrasado, resolveu que não iria se banhar. Apenas trocou de roupa, escovou os dentes, penteou o cabelo, pegou as chaves do carro e saiu. Na saída da garagem, o porteiro acenou para ele. Quis sorrir e acenar de volta, mas acabou por dar língua e mostrar o dedo médio. Como represália, o porteiro apertou o botão para fechar o portão, que amassou de leve a lateral traseira do carro.
No caminho até a firma em que trabalhava, quase morreu. Fechou uma meia dúzia de carros, furou uns três sinais vermelhos, xingou outros motoristas. Exercitou sua incivilidade, coisa que nunca havia feito na vida.
Chegando no trabalho, puxou um cavalo-de-pau e deixou o carro no meio da rua. Entrando no prédio, resolveu que não falaria com ninguém. O grande problema é que todos o cumprimentavam. Ele apenas meneava a cabeça. Contudo, graças à rijeza muscular, seus movimentos eram bruscos. Isso, somado à sua cara amarrada, fazia com que suas tentativas de saudar as outras pessoas parecessem acintes, como se estivesse dizendo: “Quê que é? Tá olhando o quê? Algum problema?”. Percebendo que apena amedrontava os outros, chegou à conclusão de que o melhor era ignorar a todos.
Entrou em seu escritório e trancou a porta, decidido a não travar contato com nenhum ser humano até a hora do almoço, quando iria a um médico. Pegou uma lista telefônica para procurar o número de algum médico e marcar consulta. Mas não sabia que tipo de especialista devia ver. Resolveu que precisava de um psiquiatra. Encontrou um número e ligou. Uma voz feminina atendeu do outro lado:
- Consultório Psiquiátrico, secretaria. Em que posso ajudá-lo?
- Sifudê!
A secretária bateu o telefone. Ele ligou de novo.
- Consultório Psiquiátrico, em que posso ajudá-lo?
- Sifudê, porra!
Visivelmente irritada, a mulher respirou fundo. De início, parecia que ia dizer algo, mas acabou por desligar. Ele tornou a ligar. A voz, antes doce e aveludada, agora soou ríspida, como se soubesse quem era.
- Consultório Psiquiátrico, pois não?
- Sifudê, caralho!
- SEU PALHAÇO! VOCÊ NÃO TEM MAIS O QUE FAZER, NÃO? COM ESSA VOZ DE VELHO E AINDA PASSANDO TROTE? SEU NÚMERO É 555-9876! SE LIGAR AQUI MAIS UMA VEZ, CHAMO A POLÍCIA!
Ele desistiu. Não havia o que fazer. Ficou em silêncio dentro de sua sala, cabisbaixo, esperando que o dia passasse. O telefone tocava, ele não atendia. Batiam na porta, fingia que não estava. Um amigo foi chamá-lo pra almoçar. Quis dizer que não estava bem, mas acabou por ofender gravemente a família do sujeito.
Às 18:00, deixou o escritório. Não via a hora de chegar em casa. Acreditava que ia voltar ao normal no dia seguinte. Na rua, entretanto, não encontrou seu carro. Tinha sido rebocado. Chamou um táxi:
- FILHO DA PUTA!
O motorista fez um gesto obsceno e continuou. Foi para o ponto de ônibus. Ficou lá por duas horas, até que outra pessoa parasse a condução que precisava, já que seus acenos eram sempre agressivos e os motoristas fingiam não ver. Pagou ao cobrador, que, com cara de poucos amigos, sequer lhe dirigiu a palavra. Ficou mais tranqüilo ao perceber que todos no ônibus tinham a mesma cara fechada e a atitude descortês. “Finalmente”, pensou, “estou em um lugar onde sou igual a todos”.
Ao pensar nisso, teve uma idéia. Desceu no próximo ponto, caminhou duas quadras e entrou num estádio. Chegou às arquibancadas no momento em que a torcida entoava um canto cujo tema era a vida sexual nada honrosa do juiz.
Juntou-se ao coro e sorriu, pela primeira vez no dia.

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