Eu não sei exatamente qual foi a mudança, mas que havia alguma, havia. Não dá pra negar. É só dar uma olhada mais cuidadosa. Cadê as farpas? Sumiram. Não que fosse um trabalho perfeito, notável, o ideal, não. A mediocridade estava ali como sempre, mas antes ela era disfarçada por todas aquelas partes pontiagudas, apontando direto pra retina de quem ousava dar uma olhada, como se tentassem cegar eventuais olhos críticos.Ali não existia nada disso. As arestas eram muito bem lixadas, algumas até polidas. Cadê os cutucões? Cadê as alfinetadas? Sumiram.
E nem adianta me perguntar como foi que aconteceu, não foi consciente. Eu até que cuidei um pouco, no começo, mas depois o processo se tornou tão natural que, quando notei, o normal era, ao olhar o produto final, não encontrar nenhuma daquelas características inerentes à marca.
Minha escrita perdeu um bocado de seu teor agressivo, e eu realmente não sei exatamente onde, quando ou por quê. Agora eu fico assim: leio o que acabei de escrever e não reconheço. Leio o que escrevi há dois, três anos e não reconheço.
Não reconheço mais nada, e quem dera fosse Alzheimer.

Welcome to the world of people who change. Se vc reconhecesse tudo, isso seria um sinal de que, em todos esses anos, pouco mudou. Mas a sensação de perda de algo assim é ruim mesmo…