Validade

- …que oportuno a gente se encontrar assim, rapaz!
- Não é? Parece até coisa de destino.
- Se é que isso existe, né? Mas fiquei muito feliz mesmo em te ver, sua ajuda foi providencial. Não sei como agradecer.
- Que nada. Tenho certeza que você faria o mesmo numa situação inversa.
- Não tenha dúvidas! Mas então, por onde você tem andado esse tempo todo?
- Por aqui, por ali. Não sou muito de ficar parado em um só lugar, não. Procuro me manter em movimento.
- Nesses tempos de incerteza é mesmo o melhor a fazer. Quem fica marcando vira presa fácil. Puxa, quanto tempo, heim? Tem o quê? Quinze anos?
- Dezessete.
- Dezessete! Uau! Parece que foi ontem! Lembra como a vida era simples e despreocupada naquela época?
- Ô! Mas prefiro não ficar pensando nisso. O que passou, passou.
- É, mas foi boa aquela nossa vida de estudante.
- E como foi!
- Tem visto alguém do pessoal?
- Às vezes encontro um ou outro ex-colega, mas é raro.
- Tem notícias do Andrade?
- Morreu.
- Morreu?
- Sim.
- O Andrade?!
- O Andrade.
- O Sombra?
- Ele mesmo.
- Mas que coisa. Como foi isso?
- Se eu te contar você não acredita.
- Então me conte e vamos tirar a prova.
- Bom, você lembra como ele era, né? Cheio de teorias absurdas. Tirava cada caraminhola científica estapafúrdia daquela cabeça que era até engraçado.
- Claro, claro. Aquela era uma figura inesquecível. Lembra quando ele cismou que poderia armazenar energia no corpo se trocasse o metal das obturações por Níquel-Cádmio?
- E dá pra não lembrar? Injetou em si mesmo uma corrente elétrica tão alta que queimou as sobrancelhas, daí o apelido de “Sombra”. Quase morreu duas vezes naquele mês: uma ao se eletrocutar e outra pela contaminação dos metais nos dentes.
- É… pensando agora, não é tão surpreendente que ele tenha ido dessa pruma melhor.
- De jeito nenhum. É até bem lógico.
- Claro. Ainda mais que o camarada cismava em ser cobaia daquelas experiências malucas.
- E foi mais ou menos isso o que vitimou o sujeito.
- E como foi? Me conte.
- Bom, ainda naquela época de colégio, um dia ele veio me dizer que andava muito cismado com prazos de validade.
- Validade de quê?
- De quase tudo que não apodrecesse ou estragasse visivelmente.
- Dessa eu não fiquei sabendo.
- Pois é, eu fiquei. Então um dia ele veio me dizer que tinha guardado alguns itens num lugar bem ventilado, protegidos da umidade e do calor excessivo. Iria mantê-los ali por uns 10 anos. Quando todos vencessem, ia testar um por um pra ver se era verdade que coisas como xampu, esmalte e inseticida perdiam a validade.
- Mas é… era cada idéia!
- Relaxa que cê não sabe da missa a metade. Pois bem, ele guardou os itens num canto da garagem da casa dele e deixou por lá. Eu já tava terminando a faculdade quando um dia ele me ligou dizendo que estava na hora. Eu perguntei “na hora de quê?” e ele disse que era o momento de testar todos aqueles produtos. Eu tirei o corpo fora, claro. O que diabos ia querer com um condicionador de 10 anos atrás? Não havia a menor possibilidade de me meter com essas coisas.
- Inteligente da sua parte.
- Mais do que você imagina. Vai ouvindo. Uma semana depois ele me liga de novo e diz que tá careca. O xampu que prometia realçar e embelezar os cabelos tinha agido de forma contrária após anos e anos vencido: os cabelos dele tinham se tornado foscos, depois quebradiços, por fim ficaram fracos e então caíram.
- Putz! Surreal!
- Cê não tem idéia! Eu tentei dissuadi-lo de continuar com aqueles experimentos, argumentando que aquilo não ia levar a lugar nenhum. Não deu certo. O cara continuava o mesmo cabeça-dura de sempre. Afirmava que tinha uma nova teoria baseada nos resultados que tivera até então e precisava testá-la. Desligou o telefone e só voltou a me ligar em umas três semanas.
- O que ele queria então?
- Me contar dos esmaltes. Segundo ele, os esmaltes vencidos tinham efeito de acetona, mas uma acetona melhorada: não só tiravam a pintura velha como tornavam as unhas “imunes”, por assim dizer, a novas camadas.
- Como assim? O esmalte nunca mais aderia às unhas?
- Isso aí.
- Mas que disparate!
- Tô te dizendo, o sujeito era doido de pedra. E falei isso a ele, que ficou puto! Berrou algo sobre minha incapacidade em compreender sua genialidade…
- Minha?
- Dele.
- Ah! E aí?
- Ele estava meio exaltado, então eu desconversei perguntando qual era o próximo produto.
- E qual era?
- Ele não quis me dizer. Simplesmente desligou o telefone. Uns dias depois me avisaram que o maluco havia sido hospitalizado com um quadro grave de anemia depois de tomar vários complexos vitamínicos vencidos.
- Foi assim que ele morreu?
- Não, essa ele superou. Liguei pra ele quando recebeu alta e no meio da conversa ele me disse que só faltava testar mais um dos produtos. Duvido que você adivinhe.
- Eu também duvido. Não me ocorre nada.
- Cê vai surtar ao ouvir isso.
- Diz logo, pô.
- Inseticida.
- …
- …
- Tá de sacanagem.
- Quem dera estivesse. Ele disse que tinha juntado alguns insetos e ia testar o baygon vencido neles.
- Quer dizer então que foi ele o responsável por…
- Exatamente! Quando soube dele, uma semana depois, foi nas páginas dos jornais. Tinha sido devorado por uma barata de oito metros e meio.
- Mas que cretino! Então a culpa é toda dele!
- Sim.
- Foi ele que começou essa praga de insetos gigantes.
- Foi.
- Por culpa daquele maldito um grilo demoliu minha casa!
- É.
- E eu quase me tornei comida de louva-a-deus!
- Ahã.
- Eu agora seria o almoço dele se não fosse por você.
- Tenho certeza que você faria o mesmo numa situação inversa.
- Não tenha dúvidas. Muito confortável essa caverna onde você vive.
- Na verdade é uma carapaça abandonada de cigarra.
- Deus abençoe as trocas de pele das cicadidae.
- Amém!

10 Responses to “Validade”


  1. 1 jot

    Muito bom! hehehehe

  2. 2 Luiz (egg-head) ou algo asism...

    Grande Pedim.. muito boa essa do Andrade… comecei a ler porque senti que tinha um final bem interessante, como aquele da menina que namorava uma iguana, lembra?? hahah. Abraço Guri.

  3. 3 Arno

    HAHAHAHAHAHAHA!
    (sem mais).

  4. 4 Marry

    CARALHO!
    AHUIOEUHUIOHOAUIHUIHAUIOHUIOA

  5. 5 Priscila**

    diria que é um Nelson Rodrigues Kafkaniano sem incesto e traição…
    :P

  6. 6 Toninho

    Genial, Pedrones, genial.

  7. 7 Dael

    OMG, o professor pardal!

  8. 8 du

    Papos de reencontros rendem… Muito original… certamente um plágio da sua mente divagadora….

  9. 9 Pedro

    Plágio?
    Não há plágio algum em qualquer lugar desta página, cara-pálida!

  10. 10 Raoni

    HAHAHAHAHA! FODA!

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